Quinze bilhões de reais. Esse é o tamanho da generosidade alheia que o governo acaba de distribuir, com a sua assinatura involuntária no rodapé do cheque, para empresas que se dizem "afetadas pelo cenário externo". Traduzindo do dialeto oficial para o português dos mortais, "cenário externo" significa que algumas corporações apostaram pesado em mercados que dependiam da boa vontade tarifária americana, erraram o cálculo, e agora o pagador de imposto entra em cena como avalista compulsório do prejuízo. Note a elegância do batismo, "Brasil Soberano", como se houvesse alguma soberania em pedir dinheiro emprestado da geração que ainda nem nasceu para tapar o buraco da geração que mandou mal nas planilhas.
O esquema é antigo, vestido de novo. Antigamente o senhor feudal cobrava o tributo e dava as costas ao servo; hoje o senhor cobra o tributo, redistribui entre seus pares de jantar e ainda exige que o servo aplauda a benevolência. Quem recebe os quinze bilhões? Não é o vendedor de pastel da esquina, não é o motorista de aplicativo, não é a costureira que sustenta três filhos. Os agraciados são "setores estratégicos", expressão mágica que significa, em termos práticos, "empresários com telefone direto no Planalto". Estratégico, descubra você, é sempre o setor que tem lobista bem pago e contribuinte de campanha bem documentado.
O argumento oficial é que as tarifas americanas machucaram exportadores, e que cabe ao Estado amparar os feridos. A pergunta que ninguém faz na coletiva é por que cabe ao caixa do trabalhador comum subsidiar o risco privado de uma empresa que, em ano de bonança, distribuía dividendos sem repartir um centavo com a faxineira da fábrica. O lucro foi privado, a perda virou pública. É a velha alquimia do capitalismo de compadrio, aquele que usa o vocabulário do mercado livre quando convém e corre para o colo do governo quando o vento muda. Curiosa essa soberania que só aparece quando vem com cheque.
E observe a coreografia da redistribuição para o Golfo Pérsico. O governo decide, de cima, que vender para xeques árabes é prioridade nacional, e usa o seu salário para bancar a aventura comercial alheia. Se os negócios com o Golfo fossem realmente lucrativos, o capital privado correria sozinho para lá, sem precisar de empurrão estatal. Quando o Estado precisa empurrar dinheiro para um mercado, é porque o mercado, deixado em paz, não considerou aquilo um bom negócio. O contribuinte vira, sem saber, o investidor anjo de uma operação que nenhum investidor consciente toparia financiar com o próprio bolso.
Há ainda a questão de onde vem esse dinheiro, mistério que a imprensa palaciana finge não enxergar. Não há fada madrinha no Tesouro. Cada real desses quinze bilhões sai de três lugares possíveis, todos doloridos: imposto que já te tiraram, dívida que vão te empurrar com juros estratosféricos, ou emissão monetária que vai corroer o seu salário pela porta dos fundos via inflação. A escolha entre essas três é apenas decorativa, porque o resultado prático é sempre o mesmo, transferir poder de compra de quem produz para quem tem acesso ao gabinete. Imposto disfarçado, dívida disfarçada ou inflação disfarçada, o senhorio cobra do mesmo inquilino.
O mais saboroso da farsa é a embalagem moral. Chamam de "soberania" o que é dependência, chamam de "estratégia" o que é favor, chamam de "ajuda emergencial" o que é repasse rotineiro do dinheiro alheio para amigo certo. Se você somar todas as ajudas emergenciais que esse país já distribuiu nas últimas três décadas, vai descobrir que a emergência é a regra, e a normalidade é a ficção. Enquanto isso, o cidadão produtivo trabalha até maio só para pagar o Leviatã, e ainda é convocado a se emocionar com a generosidade do governo que distribui aquilo que tomou dele de manhã. Quem paga sai mais pobre, quem recebe sai mais rico, e quem narra a história sai mais bem pago. Soberania de quem, exatamente?
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.