Caiu água do céu em Juiz de Fora e Ubá, e do céu burocrático de Brasília caiu, por coincidência cósmica, a chuva de R$ 75,3 milhões. Três mil e noventa e três famílias receberão R$ 7.300 cada uma, um número redondo, simpático, fotogênico, perfeito para o anúncio em rede nacional. A tragédia é real, ninguém duvida que telhado destruído dói e que móvel encharcado não volta. O que merece a lupa é o truque de prestidigitação que transforma a desgraça alheia em vitrine de bondade governamental, como se o dinheiro brotasse das mãos do ministro feito milagre de multiplicação dos pães.
Convém perguntar o óbvio, que ninguém pergunta: de onde sai esse dinheiro? Não sai do bolso de quem assina o decreto, isso é certo. Sai do imposto que o motorista de aplicativo pagou no combustível ontem, do imposto embutido na cesta básica da senhora aposentada em Belém, do tributo cravado na conta de luz do pequeno comerciante de Florianópolis. O governo não tem dinheiro próprio, jamais teve. Ele apenas confisca de milhões para distribuir a alguns, e cobra pedágio retórico no caminho, posando de salvador das vítimas que ele mesmo, com a inflação e a carga tributária, já havia empobrecido antes da primeira gota cair.
Há ainda o detalhe técnico que a manchete esconde com elegância: o anúncio fala em crédito. Ou seja, alguém vai emprestar, alguém vai operar a transferência, alguém vai cobrar tarifa, e o banco oficial que intermedeia a graça aparecerá nos próximos balanços com receita gorda de operação social. Sempre que o Estado abre a torneira da compaixão, há um cano paralelo, discreto, por onde escorre comissão para o intermediário escolhido. Não existe transferência pública sem despachante, e despachante público no Brasil cobra caro pela bondade que não é dele.
Compare a cena com a viúva romana do tempo dos imperadores tardios, quando o pão distribuído de graça nas escadarias servia menos para matar a fome e mais para garantir que a plebe aplaudisse o próximo desfile. O mecanismo é idêntico, só mudou o figurino. Sete mil e trezentos reais por família, em ano que antecede pleito eleitoral em município mineiro relevante, não é caridade, é investimento. O político calcula com a frieza do agiota: para cada real distribuído, quantos votos retornam? E a resposta histórica, infelizmente, é sempre favorável a ele.
O que ninguém diz à família atingida é que o mesmo Estado que agora chega de helicóptero com o cheque é o que sufocou, durante décadas, qualquer possibilidade séria de obra preventiva, de drenagem urbana digna, de seguro privado acessível, de mercado de resseguro funcional. Onde o governo asfixia a iniciativa privada com regulação, taxa e burocracia, ele cria o vácuo que depois ocupa com pose de heroi. Primeiro fabrica a dependência, depois vende a si mesmo como remédio. É o velho truque do incendiário que aparece com o balde, posa para a foto e ainda recebe medalha de bombeiro.
Restará, daqui a três meses, o silêncio. As câmeras já terão ido embora, as famílias terão gastado os sete mil em remendo de emergência, os telhados continuarão frágeis, as encostas continuarão instáveis, e na próxima chuva o roteiro se repetirá com novo decreto, novo valor, nova foto. O que não se repete é a pergunta que importa: quem pagou os R$ 75,3 milhões, e quem, de fato, embolsou o crédito político da generosidade alheia? Enquanto essa conta não for feita em voz alta, continuaremos achando que chove dinheiro em Brasília, quando na verdade chove imposto na cabeça de todo mundo.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.