Um deputado apresentou um requerimento em novembro, o Ministério da Justiça respondeu neste mês, e a resposta foi, em síntese, a seguinte: não sabemos o que está acontecendo. Não há controle. Não há diagnóstico. Isso não veio de um investigador independente, de uma ONG de direitos humanos ou de um jornal de oposição. Veio do próprio governo, em documento oficial, com timbre e assinatura. O Estado brasileiro, que arrecada mais de 40% do PIB nacional com a promessa implícita de garantir ordem, segurança e civilização nos quatro cantos do território, admitiu formalmente que perdeu a Amazônia para o crime organizado, e que nem ao menos sabe em que estágio se encontra essa perda. Isso tem um nome técnico na ciência política: falência.

Existe uma lógica interna, perversa e precisa, no colapso de Estados que crescem sem parar mas entregam cada vez menos. Quanto mais o governo expande suas atribuições, mais diluída fica cada uma delas. A Amazônia é o caso exemplar. Bilhões foram gastos em fundos climáticos, acordos internacionais, conferências sobre biodiversidade, delegações em Davos com passagem em classe executiva, e todo esse aparato custoso e ruidoso não conseguiu produzir sequer um diagnóstico funcional sobre quem manda de fato na maior floresta tropical do planeta. O Fundo Amazônia recebe aportes bilionários da Noruega e da Alemanha, o ministério do meio ambiente vira estrela de capa em revistas europeias, e no interior do Amazonas quem cobra pedágio nas estradas de terra, recruta menores e aplica a lei é o Comando Vermelho. Siga o dinheiro e encontrará a narrativa; siga o poder real e encontrará a facção.

Há um paralelo histórico que qualquer estudante de história deveria reconhecer de imediato. Quando o Império Romano começou a terceirizar a segurança de suas fronteiras para os próprios povos que deveria conter, chamando esse arranjo de "foederati" e fingindo que era uma solução engenhosa de governança, estava na verdade confessando que o centro havia perdido a capacidade de projetar força. O colapso não veio de fora para dentro, veio de dentro para fora. A diferença entre Roma e o Brasil contemporâneo é que Roma ao menos sabia o nome dos seus bárbaros e conseguia cartografar onde eles estavam. O Ministério da Justiça de Lula não sabe nem isso.

A admissão de falta de diagnóstico é, ela própria, o diagnóstico. Um Estado que não sabe o que acontece no seu território não está governando esse território, está apenas simulando governá-lo. E a simulação tem custos altíssimos para quem mora no interior do Amazonas, para o garimpeiro que paga extorsão para trabalhar, para o ribeirinho que vê seu filho recrutado aos catorze anos, para o comerciante que remete parte do faturamento para uma facção como se fosse imposto. Esses custos, curiosamente, não aparecem nos relatórios sobre o Fundo Amazônia. Não cabem na narrativa. A Amazônia que o governo vende ao mundo é de onças e cachoeiras; a Amazônia que o governo admite não controlar é de pistoleiros, laboratórios de refino e rotas de tráfico internacional.

O requerimento do deputado Capitão Alberto Neto foi apresentado em novembro. Levou meses para arrancar uma resposta que, no fundo, não responde nada, apenas formaliza a ignorância institucional. Isso, por si só, diz tudo sobre a seriedade com que o governo trata a segurança pública nas regiões que não votam na sua base eleitoral consolidada. A Amazônia é útil como vitrine ambiental, como argumento em negociação diplomática, como palco para discursos sobre soberania. Como território a ser efetivamente administrado, protegido e pacificado, ela é, para esse governo, terra de ninguém. E quando o Estado se omite de uma terra, a natureza, que abomina o vácuo tanto quanto a física, providencia alguém para ocupá-la. Só que dessa vez não foi um colono com enxada. Foram facções com fuzil.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.