A cena merece moldura. De um lado do palanque, ministros encenam preocupação republicana com o avanço das apostas, falam em proteger o pai de família, lamentam o Bolsa Família virando ficha de roleta, prometem rigor, comissões, estudos, fiscalizações. Do outro lado, o mesmo governo, no mês de julho, assinou autorização oficial para a 1xBet operar no Brasil, empresa apontada internacionalmente como o maior conglomerado de apostas ilegais do mundo, processada em meia dúzia de jurisdições, banida em outras tantas, e cujo histórico cabe num dossiê mais espesso que a Constituição. O discurso é para o rebanho, o despacho é para o cofre. Sempre foi.
Convém observar a mecânica do truque, porque ele é antigo. Estado anuncia que vai combater determinada atividade, cria a moldura regulatória sob o pretexto de proteger o cidadão, e em seguida vende as licenças para os mesmos atores que dizia perseguir. A regulação não nasce para conter o vício, nasce para domesticá lo, taxá lo e transformá lo em receita carimbada. O monopólio das loterias estaduais durante décadas operou assim, a propina virou outorga, o crime virou concessão, e o moralista de plantão recebe o cheque com a outra mão, aquela que não aparece na foto oficial. Quem aposta perde, quem cobra imposto sobre a aposta ganha sempre, mesmo quando finge que perde.
A pergunta correta, a única que importa, é simples e ninguém quer responder em voz alta. Quem ganha com a entrada da 1xBet no mercado brasileiro? Não é o apostador, que vai sangrar como qualquer outro apostador de qualquer outro lugar do mundo. Não é o comerciante honesto, que continuará pagando seus impostos para sustentar a estrutura que premia a casa estrangeira de fachada duvidosa. Ganham os intermediários da autorização, os escritórios de advocacia que fizeram o lobby, os marqueteiros que vão queimar a verba publicitária da bet, os clubes de futebol que recebem o patrocínio, os parlamentares que aparecem nas fotos do anúncio, e, no topo da pirâmide, o próprio governo, que arrecada outorga, taxa, GGR e imposto sobre o prêmio. Cada real apostado tem o seu pedágio. O resto é folclore.
A contradição não é descuido, é método. Se o governo realmente acreditasse que as apostas online destroem famílias, proibiria. Se acreditasse que são uma atividade econômica legítima, deixaria o mercado em paz. Mas faz o terceiro caminho, o mais lucrativo, aquele em que se condena moralmente o que se autoriza juridicamente, ficando com a renda do pecado e com a reputação de pregador. É a velha arte do confessionário que vende indulgência. O fiel sai mais leve, o caixa fica mais pesado, e o púlpito continua de pé para o próximo sermão.
Ainda há quem se espante com a incoerência, e aí está a parte mais cômica da tragédia. Não há incoerência alguma. O discurso público e a decisão administrativa não pertencem ao mesmo plano da realidade. Um serve para mobilizar a opinião, o outro para mover o dinheiro, e quem confunde os dois ainda acredita que político mente por engano. Mente por ofício, mente por desenho, mente porque a mentira é a moeda corrente do arranjo, e a verdade dele aparece no Diário Oficial, em letra miúda, num despacho de julho que ninguém leu. Quem leu, sabe. Quem não leu, paga.
Resta o cidadão pagador, que financia simultaneamente a propaganda contra o jogo, a estrutura que regula o jogo, a fiscalização que finge fiscalizar o jogo e, no fim, ainda perde no jogo. É o único personagem que sai duas vezes do bolso e zero vezes do prejuízo. A casa sempre ganha, dizem por aí, e dessa vez a casa tem CNPJ, alvará e brasão da República na entrada. Quem paga é quem sempre paga. Quem recebe é quem sempre recebeu. E o resto é fumaça para a plateia não enxergar o crupiê.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.