O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias do governo Lula acaba de confessar, com a solenidade burocrática de quem anuncia o horário do próprio funeral, que a dívida pública brasileira vai atingir 87,8% do PIB em 2029. Não é um número qualquer. É o próprio governo, com seus próprios analistas, usando suas próprias planilhas otimistas, dizendo ao país que a trajetória fiscal é de deterioração contínua pelos próximos anos. Quando o devedor te avisa que vai piorar, acredite nele, porque a realidade costuma ser ainda mais generosa com o desastre do que a projeção oficial. O detalhe que escapa ao noticiário apressado é que essa projeção já foi pior que a anterior, o que significa que o governo não está errando por acidente, está errando de propósito e cada novo erro amplia o rombo. A pergunta que todo contribuinte deveria tatuar no antebraço é simples: se a dívida cresce, alguém está emprestando, e quem empresta ao governo cobra juros do governo, e quem paga os juros do governo é você.

A mecânica é tão velha quanto a própria ideia de Estado. O governo gasta além do que arrecada, precisa de dinheiro, emite títulos, paga juros crescentes sobre esses títulos, e para pagar esses juros precisa arrecadar mais, o que significa ou aumentar impostos ou emitir mais dívida, o que por sua vez gera mais juros, que exigem mais arrecadação. É uma roda que só para quando quebra. O sistema financeiro, evidentemente, adora esse arranjo. Bancos e fundos compram os títulos públicos com a certeza de que o pagador final é o cidadão comum, aquele que não tem lobista em Brasília nem assento na mesa de negociação do Tesouro. A dívida pública não é uma abstração macroeconômica; é uma transferência concreta de renda do trabalho para o capital financeiro, intermediada pelo Estado e garantida pela violência fiscal. Cada ponto percentual a mais no endividamento é dinheiro a menos no bolso de quem produz e dinheiro a mais na conta de quem empresta. Siga o dinheiro e a história se conta sozinha.

O governo, naturalmente, apresenta a coisa como se fosse um fenômeno climático, uma tempestade que veio de fora, um legado dos governos anteriores, uma conjuntura internacional adversa. A ladainha é conhecida. Mas o fato é que ninguém obrigou este governo a criar novos programas de gasto, a expandir a máquina pública, a distribuir benesses fiscais para setores específicos, a aumentar o funcionalismo, a bancar estatais deficitárias, a irrigar fundos partidários com dinheiro do contribuinte. Cada uma dessas decisões tem nome, sobrenome, número de CNPJ beneficiado e data no Diário Oficial. A dívida não cresce por geração espontânea. Cresce porque alguém decidiu gastar e alguém decidiu se beneficiar desse gasto. O orçamento público não é um documento técnico; é um mapa do poder, e quem sabe lê-lo descobre, sem grande esforço, que os mesmos grupos que financiam campanhas são os que mais recebem contratos, subsídios, desonerações e favores regulatórios. A coincidência, claro, é puramente estatística.

O que espanta não é a deterioração fiscal, que qualquer pessoa com aritmética de quarta série poderia prever ao olhar a trajetória de gastos. O que espanta é a naturalidade com que se aceita. O brasileiro médio trabalha cinco meses por ano só para pagar impostos, recebe em troca serviços públicos que variam entre o medíocre e o inexistente, e agora descobre que o governo ainda está se endividando em seu nome para gastar o que nem a carga tributária brutal consegue cobrir. É como um sujeito que já entrega metade do salário para um sócio que não trabalha e ainda descobre que o sócio abriu um cartão de crédito no nome dele. A projeção até 2035, que a LDO apresenta como se fosse um horizonte de planejamento responsável, é na verdade a confissão de que não há plano nenhum para inverter a curva. O pico em 2029 pressupõe que tudo dê certo, que a economia cresça, que a arrecadação suba, que os juros caiam, que nenhum choque externo aconteça. Em outras palavras, pressupõe um mundo que nunca existiu e nunca vai existir.

O mais revelador de tudo é observar quem não se preocupa. Os grandes bancos seguem comprando títulos públicos com apetite renovado, porque sabem que a dívida será honrada às custas do contribuinte, nem que para isso seja preciso imprimir moeda e corroer o poder de compra de todo mundo. Os políticos seguem votando orçamentos expansionistas porque o custo da dívida é diluído no tempo e no anonimato, enquanto o benefício do gasto é imediato e tem destinatário certo. Os economistas de governo seguem apresentando cenários otimistas porque é para isso que são pagos. E o cidadão segue pagando a conta, porque não tem alternativa dentro das regras de um jogo que foi desenhado exatamente para funcionar assim. A dívida pública de 87,8% do PIB não é um bug do sistema; é uma feature. É o mecanismo pelo qual o Estado transfere riqueza dos que produzem para os que governam e para os que emprestam aos que governam. Quem paga é você. Quem recebe, você já sabe.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.