A notícia da semana, devidamente empacotada por um portal de grande audiência, é que uma cantora sexagenária descobriu, depois de décadas de carreira, que foi tocada por seres de outro planeta ainda dentro da barriga da mãe. Os sintomas, listados com a seriedade de uma bula de remédio, incluem regeneração acelerada, olfato aguçado e audição hipersensível. Faltou apenas certificado emitido em Andrômeda com firma reconhecida em cartório de Vênus. O leitor ri, compartilha, comenta, e o algoritmo agradece. Ninguém, em nenhum momento, pergunta a única coisa que importa: quem ganha dinheiro com isso?

Porque a resposta, meu caro, é tediosamente terrestre. Cada clique nessa fofoca intergaláctica vira centavo de publicidade programática, vira engajamento mensurável, vira contrato de mídia, vira cachê para a próxima aparição em programa de auditório, vira convite para reality show, vira post patrocinado de chá detox a noventa e nove reais o frasco. A celebridade fala em extraterrestres e o caixa registrador faz pi pi pi em frequência audível apenas pelos contadores. Não há mistério cósmico nenhum, há apenas um modelo de negócio antiquíssimo que os romanos já dominavam quando jogavam cristãos aos leões para encher o coliseu. Pão e circo, sem o pão.

O ponto não é a senhora em questão, que tem todo direito de acreditar no que quiser sobre a própria gestação, inclusive que foi fecundada por um cometa de Halley. O ponto é a engrenagem industrial que transforma qualquer bobagem proferida por rosto conhecido em manchete nacional, enquanto a moeda apodrece nas mãos do trabalhador, o imposto sobe na calada, e o orçamento secreto distribui bilhões para padrinhos políticos que ninguém nomeia. A imprensa profissional, aquela que se gaba de fiscalizar o poder, dedica equipe inteira para apurar o relato de um disco voador uterino. E você, contribuinte, sustenta tanto o circo quanto o picadeiro via mensalidade compulsória chamada tributo.

Há uma lógica de ferro operando aqui, e ela não admite recurso. Se o veículo precisa de audiência, e a audiência se alimenta de delírio, então o veículo produzirá delírio em escala industrial. A premissa é a sobrevivência comercial, a conclusão é o entulho mental despejado diariamente sobre a cabeça do leitor. O resultado prático, depois de duas décadas dessa dieta, é uma população que conhece o nome dos cachorros das influenciadoras, mas não sabe quanto paga de imposto embutido no botijão de gás. Distrair é a função, não o efeito colateral. Quem controla a pauta, controla o foco. Quem controla o foco, controla o voto.

O mais delicioso é o silogismo invertido que sustenta o espetáculo. Se um morador de rua afirmar que foi influenciado por extraterrestres no útero, será internado compulsoriamente e medicado à força pelo sistema público de saúde, que custa caro e funciona mal. Se uma figura pública com seguidores em sete dígitos disser exatamente a mesma coisa, ganhará matéria respeitosa, com fotos profissionais, em portal nacional. A diferença entre a psiquiatria e o estrelato, portanto, não está no conteúdo do delírio, está no saldo bancário de quem delira. Loucura com cachê é excentricidade, loucura sem cachê é caso de internação. Anote isso, vale para entender quase toda a política nacional.

Então fica a pergunta, a mesma de sempre, a única que interessa nesta coluna e em qualquer outra que se preze. Enquanto a manchete vende nave espacial uterina, qual projeto de lei foi votado no escuro, qual nomeação de afilhado passou batido, qual aumento de tarifa foi aprovado sem debate, qual relatório de tribunal de contas foi engavetado? O extraterrestre, garanto, está aqui mesmo, bem terreno, de gravata, com cargo comissionado e foro privilegiado. E continua sugando sua carteira na velocidade da luz, sem precisar de nave, nem de regeneração celular, nem de olfato apurado. Basta ter o monopólio da força e uma imprensa disposta a olhar para o céu enquanto ele esvazia seu bolso.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.