O espetáculo é digno de ópera bufa. O senhor que ocupou a cadeira mais cobiçada da economia brasileira, aquele que prometeu privatizar tudo, cortar estatais no machado e enxugar a máquina até virar origami, aparece em entrevista, anos depois, descobrindo a pólvora fiscal. Diz que gasto público demais pressiona preços. Genial. É o tipo de revelação que o padeiro da esquina faz enquanto reajusta o pãozinho, só que o padeiro nunca precisou de um ministério inteiro e quatro anos de mandato para chegar à conclusão.

Convém lembrar, antes que a memória curta do noticiário apague o essencial, que o freio de mão fiscal prometido virou pedal de acelerador disfarçado. Auxílios fora do teto, penduricalhos batizados com nomes criativos, PEC do estouro, regime fiscal flexibilizado sempre que a conveniência eleitoral pedia. E tudo isso aconteceu, pasmem, sob a batuta do mesmo economista que agora empina o nariz e aponta o dedo para os sucessores. É como o bombeiro que despejou gasolina no incêndio e depois dá entrevista criticando a temperatura das chamas.

Sigamos o rastro do dinheiro, porque ele nunca mente, ainda que os seus administradores vivam mentindo. Quando o Estado gasta mais do que arrecada, ele não cria riqueza do nada, embora a cena pareça mágica. Ele pega emprestado, emite título, pressiona o Tesouro, e no fim a conta cai na mesa de quem vende laranja na feira, na bomba de gasolina do caminhoneiro e no boleto do aposentado. O imposto inflacionário é o mais democrático dos impostos, porque não poupa ninguém, nem mesmo quem jura não pagar tributo algum. E ele é cobrado sem voto, sem lei, sem debate, na calada da emissão.

O próprio personagem sabe disso, por isso faz a dança das cadeiras retóricas. Afirma ter zero chance de voltar à política, formulação curiosa, porque ninguém rigorosamente ninguém estava oferecendo lugar na mesa. É aquela recusa solene de convite que nunca chegou, gesto clássico de quem ainda sonha em ser lembrado como estadista enquanto o país o arquiva silenciosamente na gaveta dos experimentos que não deram certo. A humildade fingida é o último luxo de quem perdeu relevância.

Observe a mecânica do truque, que é sempre a mesma ao longo dos séculos. Quando está no poder, o gestor é pragmático, diz que as circunstâncias mandam, que a realidade é complexa, que é preciso negociar. Quando sai, vira analista severo, profeta dos erros alheios, crítico implacável da gastança que ele mesmo autorizou em planilha. É a velha escola do general romano que, depois de perder a guerra, escreve livro de estratégia militar. Vende bem, mas não ressuscita os soldados enterrados no caminho.

A questão honesta, aquela que nenhum microfone complacente faz, é simples. Quem pagou pela farra fiscal do mandato passado? O mesmo brasileiro que paga agora, que pagará no próximo governo e no seguinte, independentemente da cor partidária do incumbente. A máquina é a mesma, os beneficiários são os mesmos, os burocratas protegidos são os mesmos, as estatais inchadas continuam intactas, o sistema de privilégios não foi tocado. Mudou o discurso, não a contabilidade. E quem confunde uma coisa com a outra vai continuar sendo ordenhado, com sorriso no rosto e patriotismo no lapela.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.