Existe poucas cenas mais reveladoras do espírito da nossa época do que um cidadão adulto, dono de um veículo quitado com dinheiro tributado três vezes, consultando uma tabela oficial para descobrir quantos por cento de luz visível ele pode bloquear no próprio para-brisa sem receber multa. O sol castiga, o asfalto derrete, o painel racha, a criança no banco de trás chora de calor, e a grande questão técnica não é qual película protege melhor a retina ou preserva o estofado, mas sim qual película o regulador permite que se cole. A liberdade de escolha foi reduzida a um cardápio: pode setenta por cento aqui, vinte e oito por cento ali, e nada nas laterais traseiras se for caminhonete em estado tal, e por aí vai a ladainha. Quem inventou isso? Ninguém sabe. Quem fiscaliza? Todos sabem. Quem lucra com a multa? Adivinhe.

O argumento oficial é a segurança, claro, sempre é a segurança. Película muito escura atrapalha a visão noturna, dificulta o trabalho da abordagem policial, esconde o sequestrador, esconde o traficante, esconde o terrorista, esconde o lobo mau. É o mesmo silogismo gasto de sempre: como existe risco abstrato em alguma hipótese remota, todos os motoristas do país precisam ser tratados como suspeitos preventivos. Premissa maior duvidosa, premissa menor esticada com elástico, conclusão imposta na ponta da caneta. Se a lógica funcionasse assim em todos os campos, proibiríamos cortinas em apartamentos porque atrás delas pode haver um criminoso, e venderíamos janelas obrigatoriamente transparentes para facilitar o trabalho dos vigias. Em alguns regimes, aliás, fizeram exatamente isso. Não terminaram bem.

Por baixo do verniz técnico, porém, mora o de sempre. Cada faixa percentual definida em portaria virou mercado cativo para um punhado de fabricantes credenciados, lojas com selo, instaladores certificados, laboratórios que emitem laudos pagos por película instalada. A regra, quando nasce, parece neutra; passa um ano e já existe uma associação setorial em volta dela, com lobby próprio, defendendo a manutenção do critério como se fosse cláusula pétrea da civilização ocidental. Não é casualidade. Toda regulamentação cria uma classe de beneficiários que viverá da regulamentação, e essa classe será a primeira a gritar contra qualquer simplificação. O motorista paga em três frentes: paga a película, paga o laudo, e paga a multa quando o medidor do guarda, calibrado sabe Deus quando, marca dois pontos a mais do que o tolerado.

Olhe o desenho do arranjo com calma. O Estado proíbe o que você quer. O Estado licencia quem pode vender o que você queria. O Estado fiscaliza se você obedeceu ao licenciado. O Estado multa se você desobedeceu. O dinheiro da multa engorda o caixa que paga o salário do fiscal que volta para a rua atrás de outro motorista. É um circuito fechado, autossustentável, perpétuo, e sua função declarada, proteger vidas, é a fachada simpática de uma máquina cuja função real é gerar receita e empregar burocrata. Chame pelo nome correto: imposto disfarçado de norma técnica. O confisco hoje raramente bate à porta de bota e fuzil; ele chega de uniforme amarelo, com um aparelhinho na mão e um talão no bolso.

O mais grotesco é a inversão moral. O sujeito que coloca uma película mais escura para que o filho de seis meses não tenha insolação no banco traseiro vira infrator. O legislador que assinou a portaria, sem nunca ter dirigido sob quarenta graus em uma marginal congestionada, vira guardião da ordem pública. As coisas, entretanto, são o que são, não o que a propaganda diz que são. Proteger a própria família do sol no próprio carro é exercício elementar de cuidado, não delito. Quando o Estado precisa criminalizar gestos básicos de prudência doméstica para encher os cofres, não se está mais diante de um governo, está se diante de um pedágio armado fingindo ser república.

Compre a sua película, escolha por critério técnico sério, prefira marcas que de fato barrem raios ultravioleta e infravermelho, observe a qualidade óptica para não comprometer a direção noturna, e tenha plena consciência de que, ao fazer essa escolha racional, você estará jogando um jogo cujas regras foram escritas para que você sempre deva alguma coisa a alguém. A pergunta que importa, no fim, é a mesma do começo: quem paga essa brincadeira toda? Você, sempre você. E quem recebe? Não é o sol, garanto.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.