Eis que surge, pontual como imposto sobre cerveja em véspera de feriado, mais um guia ensinando o paulistano a frequentar o litoral com "menos impacto". A peça vem com o tom solene de quem descobriu a pólvora ecológica, recheada de hospedagem consciente, roteiros responsáveis e o inevitável apelo a apoiar a comunidade local. Tudo muito bonito no papel couché. A pergunta indelicada, aquela que ninguém faz porque estraga a foto no Instagram, é a de sempre: quem está pagando essa consciência e quem está embolsando?

Pousada boutique cobrando mil e duzentos a diária porque tem composteira no quintal não está salvando tartaruga nenhuma, está salvando a margem de lucro do dono. O turismo dito sustentável virou nicho premium, etiqueta de preço com verniz moral, e a engenharia é tão antiga quanto o vendedor de indulgências da Idade Média, que cobrava do camponês uma moeda extra para garantir o assento celestial. Hoje a moeda é o pix, o céu virou foto com hashtag, e o pecado original se chama pegada de carbono. Mudaram o nome do produto, mantiveram o esquema.

Repare na trilha do dinheiro, porque ela nunca mente. O caiçara que historicamente vivia da pesca foi expulso pela especulação imobiliária, viu sua casa virar Airbnb de classe média paulistana, e agora reaparece no folheto turístico como "experiência autêntica com a comunidade local", cobrada à parte, claro. O nativo virou atração, não beneficiário. Quem fatura é a plataforma digital sediada na Califórnia, a rede de pousadas com CNPJ em paraíso fiscal, o influenciador que recebeu o convite cortesia, e a prefeitura que arrecada ISS sobre a hospedagem premium. O pescador continua com a rede furada.

A genialidade da operação está no truque retórico. Convencer o consumidor de que pagar mais é uma virtude, não um prejuízo, é a alquimia mais lucrativa do capitalismo de alvará desde que inventaram o selo de qualidade. Antes a culpa era do pecado, depois foi do colesterol, agora é da emissão de CO2, e a indústria do absolvedor cobra caro pela penitência. Note que ninguém propõe a solução óbvia e barata, que seria desregulamentar a ocupação para que o caiçara construa sua pousadinha sem precisar de quinze alvarás, três licenças ambientais e um despachante. Não, isso seria devolver a propriedade a quem mora ali. Atrapalha o cartel.

O leitor que quiser ir a Maresias ou Ilhabela tem todo o direito de ir, e tem o direito de levar sua marmita, beber sua cerveja, dormir no camping ou na pousada simples do seu Zé, sem precisar de um manual de boas maneiras escrito por gente que nunca rachou um caranguejo na pedra. Apoiar a comunidade local de verdade é comprar peixe direto do barco, não consumir a versão higienizada e gourmetizada que chega à mesa do restaurante com música ambiente. Sustentabilidade autêntica é contrato voluntário entre quem produz e quem consome, sem o pedágio do intermediário moralista.

No fim das contas, o tal turismo consciente é só mais um capítulo da velha indústria de fabricar culpa para vender absolvição com margem alta. O paulistano sai de São Paulo achando que vai purificar a alma, volta com o cartão estourado e a certeza esquisita de que fez o bem. A areia continua a mesma desde que o mundo é mundo. Quem mudou foi o preço, e quem ficou rico foi quem nunca pisou descalço naquela praia.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.