Toda vez que cai a noite e desaba aquela chuva grossa de fim de tarde, surge pontualmente o gênero literário mais brasileiro de todos, o guia de boas práticas para o motorista não morrer na estrada. Reduza a velocidade, limpe o para-brisa, troque a palheta, calibre o pneu, regule o farol, mantenha distância, ligue o desembaçador, respire fundo e reze. A mensagem subliminar é sempre a mesma, e ninguém tem coragem de dizer em voz alta: a responsabilidade por sobreviver àquela pista é exclusivamente sua, porque quem deveria entregar asfalto decente, faixa pintada e poste aceso há muito tempo desistiu da função e continua faturando pelo serviço não prestado.

Vale a pena fazer a conta de padaria que ninguém faz. O cidadão paga IPVA, paga licenciamento, paga seguro obrigatório, paga pedágio em concessionária protegida por contrato blindado, paga CIDE no litro do combustível, paga ICMS sobre o mesmo combustível, paga imposto sobre o pneu, sobre a palheta, sobre o farol de LED que ele compra justamente porque o farol original não dá conta da escuridão patrocinada pela prefeitura. Some tudo isso num ano e o motorista médio financia sozinho um pequeno trecho de rodovia federal. Em troca recebe buraco, sinalização apagada, acostamento que vira armadilha e uma cartilha educativa ensinando ele a dirigir devagar para não bater no descaso.

Há um truque retórico antigo nessa história, e funciona desde que o primeiro burocrata descobriu o poder do verbo no imperativo. Transfere-se a culpa do acidente para o comportamento individual, fala-se em direção defensiva, em imprudência, em excesso de confiança, e some da conversa o detalhe inconveniente de que aquela curva sem refletivo já matou trinta pessoas no mesmo ponto e ninguém pintou uma faixa nova porque o orçamento da secretaria foi consumido por diárias, assessores e um aplicativo de gestão que ninguém usa. Se o problema é o motorista, a solução é palestra. Se o problema é a pista, a solução é obra. E obra dá trabalho, palestra dá foto.

O mais cômico é o capítulo da tecnologia salvadora. Vendem ao consumidor o sensor de chuva, o assistente de faixa, o farol matricial, o freio autônomo, como se fossem milagres da engenharia alemã desenhados para enfrentar o inferno asfáltico tupiniquim. Não são. São paliativos caríssimos que o comprador banca de bolso para cobrir o buraco que o Estado deixou, literalmente. O carro virou EPI rodante, equipamento de proteção individual contra a omissão pública, e ainda assim o IPI sobe, o imposto de importação aperta e o seguro engorda toda renovação. Privatizou-se o risco, estatizou-se a arrecadação, e chamam isso de pacto social.

Existe uma lógica simples que o brasileiro insiste em fingir que não enxerga. Se eu pago por um serviço e o serviço não chega, alguém está com o meu dinheiro fazendo outra coisa. Não é mistério metafísico, é aritmética de feira. O dinheiro do asfalto virou cargo comissionado, o dinheiro da iluminação virou contrato de manutenção sem licitação séria, o dinheiro da sinalização virou campanha publicitária ensinando o motorista a piscar o pisca em dia de neblina. E quando o sujeito morre numa curva mal projetada, a manchete do dia seguinte fala em chuva forte e pista escorregadia, nunca em prefeito ausente e governador distraído. A natureza vira ré, o culpado vira vítima, o pagador vira estatística.

Então segue a dica honesta que nenhum guia oficial vai te dar. Dirija devagar, sim, troque a palheta, sim, calibre o pneu, sim, mas pare de aceitar como destino aquilo que é apenas resultado previsível de um arranjo desenhado para tomar seu dinheiro e devolver buraco. Cobre nominalmente quem assinou o contrato da rodovia, quem aprovou o orçamento da iluminação, quem engavetou o projeto da duplicação. A chuva é fenômeno meteorológico, o escuro é decisão política. Um você não controla, o outro você financia todo mês na boca do caixa, com um sorriso amarelo de quem agradece o privilégio de ser ordenhado.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.