Doze milhões de reais evaporaram das contas da Prefeitura de Jaraguá do Sul num passe de mágica digital. Os criminosos miraram quarenta milhões, conseguiram drenar doze, e a administração municipal, num lampejo tardio de competência, bloqueou os outros vinte e oito. A nota oficial vende isso como vitória, como se um cofre arrombado pela metade fosse motivo de comemoração. Imagine um banco privado anunciando, em tom solene, que perdeu apenas trinta por cento do caixa porque o gerente notou movimentações estranhas. O gerente seria demitido na hora; o banco, processado até a última geração. Na prefeitura, vira release.
Antes de qualquer lamento eletrônico, convém lembrar a origem desse dinheiro. Não caiu do céu, não brotou da terra catarinense, não foi gerado por nenhuma atividade produtiva da máquina pública. Cada centavo daquela conta foi extraído, sob coação, do bolso do comerciante de Jaraguá, do operário da metalúrgica, da dona de casa que paga IPTU achando que está cumprindo dever cívico. O Estado pega o dinheiro pela força, guarda mal, e quando o roubam de novo, agora por hackers, manda comunicado pedindo compreensão. É o ladrão reclamando que foi furtado pelo trombadinha na esquina.
A trilha do dinheiro, quando se tem coragem de seguir, sempre revela a mesma anatomia. Primeiro, a tributação compulsória enche o cofre. Depois, a gestão amadora deixa esse cofre exposto a qualquer adolescente com Kali Linux e paciência. No meio do caminho, contratos de TI são assinados a peso de ouro com fornecedores que prometeram segurança de nível bancário e entregaram cadeado de bicicleta. Vale a pena perguntar quem ganhou a licitação da infraestrutura digital da prefeitura, há quantos anos, com qual valor, e por que a chave do cofre municipal podia ser girada remotamente sem múltiplos fatores de autenticação. A resposta a essas perguntas costuma ser mais constrangedora do que o próprio ataque.
Há um padrão histórico que se repete com a regularidade das marés. Cidades antigas confiavam o tesouro público a sacerdotes, depois a reis, depois a câmaras municipais, e em todas as épocas o tesouro sumia, era saqueado, era dilapidado, sempre com a mesma desculpa: força maior, evento imprevisível, conjuntura adversa. A novidade do século vinte e um é apenas que o saqueador agora usa teclado em vez de espada, e a câmara municipal terceiriza a vigilância para uma empresa que nunca vai ser responsabilizada. O resto do enredo é idêntico desde que existem cofres coletivos: quem administra o que não é seu administra mal.
Note a inversão moral do comunicado oficial. A prefeitura fala como vítima, posa de heroína por ter recuperado parte do que era do contribuinte, e provavelmente já está calculando como cobrir o rombo com a próxima refixação de alíquota, próxima taxa de iluminação, próximo aumento de IPTU travestido de revisão cadastral. O cidadão pagará duas vezes: pagou para encher o cofre que foi roubado, e pagará de novo para repor o que sumiu. Essa é a beleza obscena do arranjo. No setor privado, perda de doze milhões significa demissão, processo, indenização, falência. No setor público, significa nota à imprensa e silêncio até o próximo escândalo.
Quem paga, no fim, é sempre o mesmo sujeito, aquele que produz e vê o fruto do trabalho ser sugado por uma estrutura que jura protegê-lo. Quem recebe, no caso particular, é o quadrilheiro digital que conhecia a fragilidade do sistema melhor do que o próprio prefeito. Mas quem recebeu antes, em silêncio, ano após ano, foram os fornecedores de cibersegurança fajuta, os consultores que assinaram laudos tranquilizadores, os secretários que aprovaram orçamentos sem ler. O hacker apenas levou o que estava no balcão, escancarado. A pergunta que fica é se a indignação coletiva vai mirar no ladrão remoto, conveniente e sem rosto, ou no gestor presencial que deixou a porta destrancada e ainda quer aplauso por ter fechado a janela depois que o vento já tinha levado a metade da casa.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.