O ex-ministro da Fazenda, aquele mesmo que entregou um arranjo fiscal costurado a ferro e fogo enquanto a carne subia e o feijão virava artigo de luxo, encontrou a explicação definitiva para o empate técnico entre seu chefe e o filho do antecessor nas pesquisas. Não é a economia, não é a inflação dos alimentos, não é a sensação de insegurança, não é a fadiga com um governo que governa para sindicato, ONG e cúpula partidária. É lavagem cerebral coletiva. O povo, coitado, está com defeito de fábrica. Precisa voltar para a assistência técnica do Planalto.
Há uma beleza quase litúrgica nesse tipo de declaração. Quando o palanque funciona, o povo é sábio, soberano, voz de Deus. Quando o palanque falha, o povo é gado, massa de manobra, vítima de manipulação. A premissa maior é simples: o nosso candidato representa o bem objetivo. A premissa menor é que o eleitor está rejeitando o nosso candidato. Conclusão inevitável pela lógica deles: o eleitor está doente. Repare que jamais passa pela cabeça desses senhores a hipótese mais econômica e mais elegante, a saber, que o sujeito da padaria simplesmente fez as contas do mês e chegou a um veredicto. Mas admitir isso exigiria humildade, e humildade é mercadoria que não se encontra na prateleira de quem governa há vinte anos com intervalos curtos.
Siga o dinheiro e o diagnóstico se inverte. Quem paga a conta da reoneração silenciosa, do imposto que sobe disfarçado de "justiça tributária", do dólar que escala porque o gasto público não respeita teto, parede nem alicerce? O sujeito anônimo que vai ao mercado e descobre que a picanha agora é cogumelo. Quem recebe? O ecossistema de cargos, emendas, fundos partidários inflados, bancos públicos que viram caixa eletrônico de aliado, agências reguladoras transformadas em cabide e o batalhão de assessores especiais que nasceram com a Nova República e se reproduzem por mitose. A pesquisa que tanto incomoda não mede lavagem cerebral nenhuma; mede a divisão exata entre quem pena no caixa e quem festeja no Itamaraty.
O truque retórico é antigo como a guilhotina. Quando os jacobinos perderam o povo de Paris, não foi porque cortaram cabeças demais; foi porque o povo era contrarrevolucionário, atrasado, manipulado pelo clero. Quando os bolcheviques precisaram fuzilar camponeses que se recusavam a entregar o trigo, não era fome o que motivava a resistência; era falsa consciência, sabotagem dos kulaks, propaganda burguesa. Sempre que a vanguarda iluminada se desencontra do rebanho, o problema é do rebanho. Nunca do pastor que vendeu a lã, comeu o cordeiro e ainda cobrou pelo cajado.
O detalhe saboroso é que a acusação de "lavagem cerebral" vem precisamente do grupo que controla a maior fatia da mídia subsidiada do país, que despeja bilhões em publicidade oficial em veículos amigos, que financia plataformas de checagem que checam apenas um lado do tabuleiro, que pressiona redes sociais para censurar adversário e que tem ministérios inteiros dedicados a moldar narrativa. Se houvesse mesmo lavagem cerebral em curso, ela operaria a favor de quem segura o sabão, não contra. O empate nas pesquisas, portanto, não é prova de manipulação; é prova de que a manipulação está custando caro e rendendo pouco. A propaganda bate, e a conta do supermercado bate mais forte.
O que se vê é o velho fenômeno do rei nu cercado de cortesãos profissionais. Quando o súdito aponta para a nudez, o cortesão não conserta a roupa; ele acusa o súdito de astigmatismo. O eleitor brasileiro, esse sim, está fazendo silogismo de boteco com mais rigor que ministro de Estado: governo prometeu fartura, fartura não veio, logo o governo mentiu. Não há terapia coletiva, jingle bem produzido nem entrevista de domingo capaz de desmontar essa pequena escada lógica. E é por isso que o desespero agora veste o paletó da psiquiatria política. Quem paga continua pagando, quem recebe continua recebendo, e quem ousa perceber a transação é internado compulsoriamente no hospício imaginário da "alienação". Resta saber por quanto tempo ainda, porque paciente que descobre o diagnóstico do médico costuma trocar de hospital.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.