Fernando Haddad, agora vestido de pré-candidato ao governo de São Paulo, quer que o público acredite numa narrativa curiosa: ele, enquanto ministro da Fazenda do Brasil, foi alertado sobre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e por isso recusou recebê-lo "várias vezes". A declaração, feita com aquele ar de virtude retrospectiva que políticos adoram exibir quando o escândalo já estourou, levanta uma questão que qualquer pessoa com dois neurônios funcionais deveria fazer: se você sabia, ministro, o que exatamente fez a respeito? Porque recusar um cafezinho não é política pública. Recusar um cafezinho é teatro.
Vamos ao básico. O ministro da Fazenda é, por definição institucional, o homem que senta sobre o sistema financeiro nacional. Ele não precisa receber ninguém para agir. Ele tem o Banco Central na órbita do governo, tem o Conselho Monetário Nacional, tem os órgãos reguladores todos à disposição. Se Haddad foi "alertado" sobre irregularidades ou riscos envolvendo o Banco Master e seu controlador, a obrigação funcional dele não era recusar reunião, era acionar os mecanismos de fiscalização. Não receber o sujeito na sala e depois contar isso como prova de integridade é o equivalente moral de um bombeiro que vê fumaça saindo do prédio, tranca a porta do quartel e depois se vangloria de não ter apertado a mão do incendiário.
Mas há algo mais fundo nessa história, algo que se repete com uma regularidade quase cômica na política brasileira. Todo escândalo financeiro segue o mesmo roteiro: enquanto o dinheiro circula e os arranjos funcionam, ninguém vê nada, ninguém sabe de nada, ninguém recebeu ninguém. Quando a bomba estoura, aparecem dez, vinte figurões jurando que sempre souberam, sempre desconfiaram, sempre mantiveram distância. É a síndrome do conhecimento retroativo, essa doença crônica de Brasília onde todo político é um profeta, mas só depois que a profecia já se cumpriu. O Banco Master operou durante anos dentro do sistema regulado. Captou bilhões via CDBs cobertos pelo FGC, o Fundo Garantidor de Crédito, que no fim das contas é bancado pelos correntistas de todos os outros bancos. Se o barco afundar, quem paga o resgate não é Haddad, não é Vorcaro, não é nenhum político de palanque. É você, depositante, contribuinte, trabalhador que tem conta em banco e acha que seu dinheiro está seguro porque existe uma sigla de três letras garantindo.
E é aqui que a conversa fica realmente interessante, porque o FGC é uma daquelas maravilhas do sistema financeiro moderno que funciona exatamente como um seguro socializado do risco privado. O banqueiro assume riscos agressivos, oferece rentabilidades acima do mercado para atrair capital, opera no limite do permitido, e se der errado, o fundo coletivo cobre. O lucro é privado, o prejuízo é distribuído. Isso não é acidente, não é falha do sistema. Isso é o sistema. E o ministro da Fazenda, aquele que recusou o cafezinho, é o fiador político dessa arquitetura. Cada real que o Banco Master captou sob a cobertura do FGC foi captado com o aval implícito do arcabouço regulatório que Haddad supervisionava. Dizer que não recebeu Vorcaro é como o dono do cassino dizer que não conhece o crupiê.
O mais revelador, porém, é o timing. Haddad não faz essa declaração como ministro prestando contas. Faz como pré-candidato construindo biografia. A recusa em receber Vorcaro não é apresentada como falha de ação, que é o que realmente foi, mas como prova de caráter. A política brasileira tem essa capacidade alquímica de transformar omissão em virtude, inação em prudência, e cumplicidade silenciosa em distância moral. O eleitor é convidado a aplaudir não o que o político fez, mas o que ele diz que deixou de fazer. É um jogo de espelhos onde a imagem projetada importa mais que o objeto real. Enquanto isso, o Banco Master segue sendo investigado, o FGC segue exposto, e o dinheiro dos depositantes segue pendurado na boa vontade de um sistema que premia quem arrisca com o dinheiro dos outros. Quem paga a conta? Você já sabe a resposta. Só não pergunte ao ex-ministro, porque ele estava ocupado demais recusando reuniões.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.