A Hershey chegou à conferência da Barclays com o roteiro que toda multinacional encenada usa quando os números pararam de contar a história bonita: fala em redefinição de lucros, apresenta um plano de crescimento em slides caprichados e pede paciência ao mercado. Traduzindo do corporativês para o português: a margem murchou, o cacau explodiu, o consumidor está comprando menos chocolate, e agora a diretoria precisa vender a ideia de que tudo isto faz parte de um plano maior. Só que plano maior de verdade não precisa ser anunciado em conferência de banco; ele aparece nos resultados sem legenda.
O detalhe que ninguém no palco quis sublinhar é que boa parte desta encrenca não nasceu na fábrica nem no supermercado, nasceu nos gabinetes onde se decide imprimir dinheiro como se árvore de dólar desse fruto. Quando se inunda o mundo de liquidez por uma década, todo ativo real, do imóvel ao grão de cacau, entra numa festa de preços que ninguém consegue mais explicar pela oferta e pela demanda genuínas. Depois vem o susto, a comida pesa no orçamento das famílias, o volume vendido cai, e a executiva vestida de terninho aparece em Nova York explicando que "o consumidor está mais seletivo". Está mais pobre, é a palavra que ela não pode usar.
A Hershey também empurrou para o cenário a velha figura do fator externo incontrolável: safra ruim na África Ocidental, clima, logística, especulação. Tudo verdade parcial, tudo conveniente. O que não se diz é que a mesma empresa passou anos recomprando ação a preço de céu, engordando bônus de executivo, e agora, quando o vento vira, descobre que precisa cortar custo, mexer no portfólio e prometer eficiência operacional, aquele curinga semântico que serve tanto para demitir gente quanto para adiar investimento. O lucro que se recompra em bolsa não volta como caixa quando a maré desce; vira slide.
Vale olhar para o que está atrás da cortina do plano de crescimento. Quando uma empresa madura, em setor maduro, num país maduro, promete acelerar receita a taxas de startup, ou ela vai comprar concorrente com dívida cara, ou vai aumentar preço acima da inflação até o consumidor rebelar, ou vai empurrar linha nova para prateleira que já está saturada. Nenhuma dessas rotas é gratuita, e todas dependem de um ambiente monetário que já não é o mesmo que embalou a década passada. Prometer crescimento de dois dígitos num mundo de juro real positivo é o tipo de coisa que impressiona estagiário de research e faz veterano rir por dentro.
Há ainda a camada regulatória, que ninguém menciona porque incomoda os dois lados do balcão. Cada nova rodada de rotulagem obrigatória, imposto sobre açúcar, restrição a publicidade infantil, exigência de rastreabilidade do cacau, é uma pedra a mais na mochila da indústria alimentícia, e o custo dessa mochila não fica no acionista, escorre para o preço da barra de chocolate na gôndola. O burocrata que assina a portaria em Bruxelas ou em Brasília nunca aparece no release da Hershey, mas está lá, embutido, cobrando pedágio invisível de cada mãe que coloca um chocolate no carrinho.
No fim das contas, a conferência da Barclays foi menos sobre chocolate e mais sobre o ritual moderno em que grandes companhias reencenam otimismo porque o mercado exige liturgia. O investidor atento não compra o plano, compra o desconto que o susto criou, e cobra depois. O consumidor, esse, já votou com o carrinho vazio, e o voto dele vale mais que qualquer slide. Empresa que precisa redefinir lucro geralmente está redefinindo desculpa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.