O fato é simples, brutal e despido de qualquer ambiguidade interpretativa: um homem adulto, em Alumínio, São Paulo, pegou uma agulha de crochê, ferramenta de trabalho paciente e feminino, instrumento de criação lenta e meticulosa, e a usou como arma contra a mulher que o pariu. A Polícia Militar registrou a ocorrência com a frieza burocrática de sempre, o boletim foi lavrado, o sujeito foi detido, e a imprensa noticiou com a brevidade reservada às coisas que já não nos espantam. E aí está o problema real: já não nos espantam.
Existe uma palavra grega, storgé, que designa o amor natural entre parentes de sangue, especialmente entre mãe e filho. Os antigos a distinguiam com cuidado de outras formas de amor precisamente porque a consideravam o vínculo mais elementar, o mais anterior a qualquer contrato social, a qualquer lei positiva, a qualquer convenção cultural. Era o amor que não precisava ser ensinado porque brotava da própria natureza da coisa. Pois bem: em Alumínio, interior paulista, o ano de 2026 registra com sua burocracia policial indiferente que esse amor, o mais antigo e o mais instintivo, foi perfurado por uma agulha de crochê. Pergunta-se: o que foi destruído antes para que isso fosse possível?
A família não se desintegra no vácuo. Ela se desintegra quando o Estado passa décadas sistematicamente substituindo cada uma de suas funções: ampara a criança no lugar do pai, educa no lugar dos pais, socorre a velhice no lugar dos filhos, regula o casamento, tributa o trabalho doméstico indiretamente, penaliza a constituição de patrimônio familiar com impostos sucessórios e burocracia cartorial. O Estado moderno não destruiu a família com um decreto, destruiu-a com mil serviços não solicitados, cada um deles financiado com dinheiro arrancado da mesma família que pretendia proteger. O resultado é uma geração de adultos que cresceram sem aprender o que significa dever algo a alguém, nem mesmo à mulher que perdeu o sono por eles durante décadas. A agulha de crochê é a conta chegando.
Não se trata aqui de psicologismo barato, de buscar o trauma de infância ou o distúrbio de personalidade que explique o inexplicável. A tentação de individualizar o horror é uma das mais sofisticadas formas de covardia intelectual, porque permite que se resolva o problema prendendo um homem e fingindo que o resto da sociedade está quite. Roma também prendia seus criminosos enquanto a família romana se dissolvia, enquanto a plebe trocava a virtude cívica por pão e circo, enquanto o paterfamilias virava figura de museu. Ninguém escreveu um manifesto decretando o fim da família romana. Ela simplesmente foi, aos poucos, tornando-se desnecessária, e depois insuportável, e depois perigosa para os próprios que dela faziam parte.
O segundo caso registrado na mesma notícia, violência contra companheira em outra cidade do interior, aparece quase de passagem, como nota de rodapé. Dois episódios, duas cidades, a mesma semana, o mesmo padrão: o homem voltando sua violência contra quem está mais próximo, mais vulnerável, mais dentro do círculo que deveria ser sagrado. Não é coincidência estatística, é sintoma. E sintoma não se trata prendendo o portador, trata-se atacando a causa. A causa, neste caso, não tem mandado de prisão expedido contra ela. A causa passa orçamentos, cria secretarias, discursa em palanques e se apresenta como solução para os mesmos problemas que ajudou a criar.
A agulha de crochê ficará como peça de processo, catalogada em algum arquivo de delegacia. A mãe, provavelmente, vai retirar a queixa. O filho, eventualmente, voltará para casa. E o ciclo continuará porque ninguém, em nenhuma instância do poder constituído, tem o menor interesse em fazer a pergunta que importa: que tipo de homem é produzido por uma civilização que decidiu, metodicamente, tornar a família dispensável? A resposta está no boletim de ocorrência. Está escrita com uma agulha de crochê.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.