Cole Allen, 31 anos, diploma do Caltech, currículo carimbado pela Nasa, decidiu numa noite qualquer testar na prática a competência do serviço secreto americano. Furou a barreira, avançou em direção ao jantar do presidente e só foi contido depois de já ter feito o que teoricamente nenhum cidadão comum deveria conseguir fazer. Não levava bomba, não levava arma, levava apenas o constrangedor recado de que o rei dorme com a porta aberta enquanto cobra do contribuinte o preço de um castelo blindado.

Repare na comédia. O orçamento anual do Secret Service beira os três bilhões de dólares, dinheiro arrancado do bolso do americano médio sob a promessa solene de que homens treinadíssimos, sensores de última geração e protocolos militares manteriam o ocupante da Casa Branca a salvo de qualquer ameaça. Eis que um engenheiro magrelo, sem treinamento de combate e sem cúmplices, atravessa o perímetro a pé. Se fosse um filme, o roteirista seria demitido por inverossimilhança. Como é a vida real, ninguém será demitido, e o orçamento, claro, será aumentado no próximo ciclo sob o argumento de que o incidente prova a necessidade de mais recursos. O fracasso, no Estado, é sempre justificativa para expansão.

Há aqui uma lição antiga que insiste em ser ignorada. Toda burocracia que monopoliza um serviço, qualquer que seja ele, termina entregando o pior produto pelo maior preço, porque não enfrenta concorrência nem responde por resultados. Se a empresa privada que cuida da segurança de um shopping deixasse um sujeito furar o cordão e chegar até o cliente principal, perderia o contrato no dia seguinte. O Estado, porém, falha e cobra mais por isso. É o único negócio do mundo em que a incompetência gera promoção e o desastre vira argumento para nova dotação orçamentária.

O detalhe sociológico também merece atenção. O invasor não é um marginal saído de cortiço, não é o estereótipo barato que a imprensa adora desenhar quando precisa explicar violência. É produto refinado da elite tecnológica, formado pela máquina que fabrica engenheiros de foguetes e laureados em ciências exatas. Quando o filho pródigo da meritocracia decide pular a cerca do poder, alguma coisa desandou no andar de cima, e essa coisa raramente cabe no laudo psiquiátrico de uma única pessoa. Sociedades em que jovens brilhantes sentem necessidade de irromper no jantar do presidente não estão saudáveis; estão emitindo um sinal, e o sinal costuma ser ignorado pelos mesmos que vivem do problema.

Siga o dinheiro, como sempre. Quem paga essa farsa é o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar metrô e vê metade do salário evaporar em tributos. Quem recebe são os contratados do complexo de segurança, as empresas fornecedoras de tecnologia inútil, os consultores que escrevem relatórios sobre como melhorar a segurança depois que ela falhou, e a própria casta política que usa cada incidente como pretexto para apertar mais um pouco o cerco sobre o cidadão comum, jamais sobre si mesma. O resultado prático é previsível: você, contribuinte, será revistado com mais zelo no aeroporto, enquanto o jantar presidencial continuará vulnerável ao próximo engenheiro entediado.

O episódio devolve a pergunta original, aquela que nenhum porta-voz oficial quer ouvir. Para que serve esse Leviatã caríssimo, se nem o pescoço do próprio César ele consegue proteger? A resposta honesta, se alguém tivesse coragem de dá-la, é que o aparato não foi desenhado para proteger ninguém de fato; foi desenhado para se autoperpetuar, faturar contratos, justificar cargos e produzir aquela aura de solenidade que faz o povo baixar a cabeça quando passa a comitiva. O cordão de isolamento é teatro. O engenheiro pulou o palco e mostrou que atrás da cortina não havia nada além de fumaça e figurantes. Rir disso é a única reação digna que sobra ao espectador que paga o ingresso.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.