Abro o noticiário numa quarta-feira de abril e encontro, em posição de destaque, a informação vital de que os astros têm algo a revelar sobre o meu dia. Não é piada. Não é coluna de entretenimento escondida no rodapé. É manchete. Previsão para os doze signos, como se o alinhamento de Vênus com Saturno fosse mais determinante para a vida do brasileiro do que o alinhamento do Banco Central com o Ministério da Fazenda. O país que tributa a cesta básica, que taxa herança, que cobra imposto sobre imposto, que transforma o cidadão em escravo fiscal de janeiro a maio só para pagar o que o Estado lhe extorque, esse mesmo país produz jornalismo que prefere consultar o zodíaco a consultar o Diário Oficial.
Não tenho nada contra quem lê horóscopo por diversão. O problema é outro, e é estrutural. Quando a grande imprensa ocupa espaço com previsões astrológicas em vez de destrinchar a última medida provisória que aumentou a carga tributária, ela não está sendo frívola por acidente. Está cumprindo uma função. A distração de massa sempre foi a melhor amiga do poder. Roma já sabia disso com o circo, e os nossos césares de Brasília sabem com a pauta mole. Enquanto o contribuinte lê que "Áries terá um dia favorável para negócios", o Congresso vota em regime de urgência mais uma jabuticaba regulatória que vai encarecer o crédito, dificultar a vida do pequeno empresário e engordar o caixa de algum fundo partidário. Mas calma, Escorpião: a Lua promete equilíbrio emocional.
A pergunta que organiza qualquer análise séria é sempre a mesma: quem paga e quem recebe? Quem paga é você, leitor, que entrega cinco meses do ano para sustentar uma máquina pública hipertrofiada, inchada, apodrecida de privilégios, e que em troca lhe oferece estradas esburacadas, hospitais sem médico e escolas sem professor. Quem recebe? Recebe o estamento burocrático que vive de sugar a renda alheia, recebem os grupos de interesse que moldam cada regulação a seu favor, recebe toda uma casta política que transformou o Orçamento da União em balcão de negócios. E entre uma pilhagem e outra, para manter o rebanho dócil, alguém decide que é hora de publicar o horóscopo. Não como curiosidade, não como rodapé. Como manchete.
Há algo de profundamente revelador no fato de que um veículo que se pretende combativo, que carrega no nome a sugestão de antagonismo, entregue ao seu leitor a mesma papinha mística que qualquer tabloide de banca de revista. Isso diz menos sobre astrologia e mais sobre o modelo de negócio da informação no Brasil. O clique vale mais que a verdade, a viralização vale mais que a investigação, e no fim das contas o jornalismo que deveria fiscalizar o poder termina anestesiando o povo. É a velha técnica: mantenha o súdito ocupado com bobagem e ele nunca terá tempo de perceber que está sendo roubado. Funciona há milênios e continua funcionando numa quarta-feira de abril de 2026.
Se os astros realmente regessem a vida das pessoas, o brasileiro médio, que trabalha de janeiro a fim de maio só para pagar tributos, nasceu todo debaixo do mesmo signo maldito. Mas não é culpa das estrelas. É culpa de um sistema político desenhado para extrair riqueza dos que produzem e redistribuí-la entre os que parasitam. E enquanto não olharmos para baixo, para os decretos, as portarias, os contratos sem licitação, as emendas secretas, os fundos bilionários sem transparência, em vez de olhar para cima, para constelações que nada decidem, continuaremos sendo o povo mais tributado e menos indignado do hemisfério. Os astros não revelam nada sobre a sua quarta-feira. O Diário Oficial, sim. Mas esse ninguém publica na manchete.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.