Eis que chega mais uma semana e, pontual como cobrador de aluguel, surge a coluna astrológica prometendo decifrar o que os astros reservam para cada signo entre 25 e 31 de maio. A astróloga de plantão, sacerdotisa moderna de um culto que sobrevive desde os caldeus, distribui conselhos genéricos o bastante para caber em qualquer vida e específicos o bastante para parecerem revelação. É o velho truque do efeito Barnum vestido com roupa nova, embalado em diagramação bonita e vendido como jornalismo de variedades. O leitor engole, sorri, compartilha no grupo da família e segue a semana convencido de que Vênus tem alguma coisa a ver com seu chefe ranzinza.
Quem paga essa brincadeira? Você, evidentemente. Paga com atenção, que é a moeda escassa do século. Paga com clique, que vira anúncio, que vira receita publicitária. Paga, sobretudo, com a desabituação ao raciocínio causal. Porque o sujeito que aceita que sua sexta-feira vai ser difícil porque a Lua entrou em Escorpião também aceitará que a inflação aconteceu por causa da guerra na Ucrânia, que o desemprego é culpa do clima, que o real desvalorizou porque o mercado está nervoso. A astrologia é o curso preparatório para a economia política oficial. Quem se rende a uma, está maduro para a outra.
Observe a estrutura do golpe, que é antiga como a fogueira. Faz-se uma afirmação vaga, do tipo "semana de reflexões profundas para canceriano", e cabe tanto ao viúvo recente quanto à adolescente apaixonada. Se der certo, o horóscopo acertou. Se der errado, o nativo não soube interpretar a energia. O risco é zero, o lucro é integral. Qualquer banqueiro central faria inveja desse modelo de negócio, no qual o operador nunca erra e o cliente nunca cobra. Os antigos áugures romanos liam vísceras de galinha com a mesma desfaçatez, e a plebe pagava em moeda de ouro para ouvir que os deuses aprovavam mais um imposto sobre o sal.
O divertido é notar que o mesmo público letrado que ri do crente pentecostal lendo a Bíblia consulta religiosamente seu signo ascendente antes de marcar uma reunião. Trocou-se um livro de dois mil anos por uma planilha de efemérides, e o resultado é o mesmo: terceirizar a responsabilidade. Se a semana foi ruim, a culpa é de Saturno. Se foi boa, agradece a Júpiter. Em nenhum momento alguém precisa olhar no espelho e admitir que tomou decisões burras, gastou mal o dinheiro, escolheu mal o parceiro, votou pior ainda. A astrologia é a teologia confortável dos que se acham racionais demais para Deus, mas precisam de alguém para culpar quando a vida desanda.
E há ainda o aspecto mercadológico, que poucos mencionam. Por trás de cada coluna semanal circula um ecossistema robusto: cursos de tarô, mentorias de mapa astral, aplicativos de assinatura mensal, consultas pelo Pix a duzentos reais a hora. É uma indústria que move bilhões globalmente, isenta de regulamentação séria justamente porque ninguém ousa questionar o "espiritual". Tente vender remédio sem aprovação sanitária e você dorme na cadeia. Venda previsões cósmicas e ganha coluna em jornal grande. A diferença é que o remédio falso mata o corpo, e o conselho astral mata o juízo, e o juízo morto não rende processo nem manchete.
Que cada um faça das estrelas o que quiser, evidentemente, pois a liberdade inclui o direito sagrado de acreditar em qualquer bobagem desde que se pague do próprio bolso. O problema começa quando se confunde entretenimento com orientação, e orientação com verdade. Os astros não devem nada a ninguém, não emitem nota fiscal, não respondem por danos. Quem vende previsão semanal, sim, deveria responder. Mas como o produto é fumaça, e o consumidor sai feliz, o ciclo se repete toda segunda-feira, milenarmente, do zigurate babilônico ao portal de notícias. Quem paga é o leitor distraído. Quem recebe é a indústria do encanto.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.