A frase saiu rápida, quase antes dos votos serem contados. "A Hungria escolheu a Europa," declarou a presidente da Comissão Europeia, como quem recebe de volta um filho pródigo. Peter Magyar, candidato da oposição de centro-direita, derrotou Viktor Orbán depois de dezesseis anos no poder, e os telefonemas de parabéns chegaram de Paris, Berlim e Estocolmo com velocidade que diria muito sobre quem esperava o quê dessa eleição. O presidente francês parabenizou o "apego aos valores da União Europeia". O chanceler alemão falou em "Europa forte e unida". A presidente da Comissão falou como quem reivindica uma propriedade perdida. Nenhum deles falou em soberania húngara, em povo húngaro, em interesses húngaros. Falaram em Europa. Isso não foi descuido.
A fórmula "escolheu a Europa" merece ser destrinchada, porque ela revela a arrogância do eurocentrismo burocrático com uma honestidade rara. Ela pressupõe que havia uma alternativa, que a Hungria poderia ter "escolhido" não ser europeia, e que a escolha certa, a única aceitável, era a submissão ao projeto de Bruxelas. Orbán incomodava porque exercia soberania nacional dentro de uma estrutura criada precisamente para erodí-la. Bloqueou sanções, negociou com Moscou, recusou quotas migratórias, travou verbas destinadas a ONG's financiadas de fora. Era inconveniente. Era, acima de tudo, previsível, porque o eleitor húngaro sabia o que estava comprando. Com Magyar, Bruxelas comprou paz, e a Hungria vendeu algo que levará gerações para avaliar o preço.
Existe um padrão histórico que os entusiastas desta vitória preferem não enxergar. Toda vez que uma grande potência centralizada celebra com entusiasmo a eleição de um líder em um país menor, o país menor saiu perdendo. Não imediatamente, não visivelmente, mas saiu. O mecanismo é sempre o mesmo: o dinheiro flui, os projetos aparecem, os técnicos chegam, as condicionantes se multiplicam, e um belo dia aquele país descobre que não controla mais sua política monetária, sua política migratória, sua política energética ou suas normas trabalhistas sem passar por um comitê em Bruxelas que ninguém elegeu e ninguém pode destituir. A Grécia tem uma história que poderia contar sobre isso, se alguém estivesse disposto a ouvir.
O ponto não é defender Orbán como estadista exemplar. O ponto é que a alegria demonstrada pelos líderes europeus neste domingo não foi a alegria de quem viu um povo exercer democracia. Foi a alegria de quem recuperou um território difícil. Existe uma diferença enorme entre um povo que vota por mudança interna e um povo cuja mudança é comemorada por potências externas como retorno à ordem. A primeira é democracia; a segunda é tutela com aparência de democracia. A distinção parece pequena até o momento em que você precisa dela.
Magyar ainda precisa governar. E governar significa, cedo ou tarde, confrontar a realidade de que as demandas de Bruxelas e os interesses húngaros concretos nem sempre se alinham. Quando esse momento chegar, e virá, a mesma Ursula von der Leyen que hoje declara amor pela Hungria estará do outro lado da mesa, com os mecanismos de condicionalidade, as ameaças de corte de fundos e os relatórios sobre estado de direito já redigidos e prontos para assinar. A celebração de hoje é o crédito que cobra juros amanhã. A Hungria escolheu a Europa, diz Bruxelas. O que Bruxelas não diz é o que cobrou pelo escolhimento.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.