O anúncio veio empacotado no tom de sempre, aquele verniz de "experiência integrada" que as áreas de marketing das grandes corporações vomitam a cada trimestre. Hyatt e Delta, uma dona de hotéis, outra dona de aviões, resolveram unir seus programas de fidelidade num acordo de longo prazo. Quem é status alto num lado ganha mimos no outro, quem acumula pontos aqui gasta ali, e a coreografia é apresentada como se fosse presente de Natal para o viajante frequente. Não é. É um contrato entre duas empresas para prender ainda mais o cliente dentro de um circuito fechado, e o custo desse circuito, como todo custo empresarial, sai do bolso de quem consome.
Olha, ninguém precisa de doutorado para entender o mecanismo. Programa de fidelidade não é gentileza, é engenharia comportamental. Cada milha acumulada é uma corrente invisível que amarra você àquela marca, porque abandonar significa perder um saldo que a empresa te convenceu de que vale mais do que realmente vale. Quando duas gigantes juntam seus universos de pontos, elas dobram a corrente e vendem isso como colar de pérolas. O passageiro que antes podia pesquisar hotel sem viés agora tem uma cenoura pendurada dizendo "durma aqui, ganhe milha lá", e a pesquisa livre morre no nascedouro. Concorrência? Que concorrência. O cardápio de escolhas encolhe enquanto o discurso jura que expandiu.
E aqui entra a parte que ninguém no jornal econômico de banca vai contar. Esse tipo de aliança prospera exatamente porque o setor aéreo americano é dos mais capturados do planeta, com barreira regulatória altíssima, subsídios cruzados via infraestrutura pública, e um punhado de companhias que sobrevivem porque o governo não deixa quebrar. Hotel de rede grande vive do mesmo ecossistema, cheio de incentivo fiscal municipal, financiamento subsidiado, e uma teia de acordos com bandeiras de cartão que também nadam em regulação. Quando dois peixes desse aquário resolvem nadar juntos, não é livre iniciativa, é um arranjo entre privilegiados que já receberam permissão para existir daquele jeito.
Quer dizer, o consumidor médio acha que está ganhando porque enxerga o upgrade de quarto, o embarque prioritário, o cafezinho grátis no lounge. É o que se vê. O que não se vê é o preço da passagem que sobe alguns dólares para financiar aquela milha, é a diária de hotel calibrada para incluir o custo do programa de pontos, é o pequeno concorrente independente, uma pousada boutique ou uma companhia regional, que jamais conseguirá oferecer contrapartida equivalente e será estrangulado pela lógica do ecossistema fechado. O afago que você recebe no balcão de check-in foi financiado pelo desaparecimento de opções que você nem soube que existiram.
Existe ainda o lado mais sutil da coisa, o do valor subjetivo transformado em ficção contábil. Aquele saldo de milhas na sua conta parece patrimônio, mas é passivo da empresa emissora, precificado por ela, com regras que ela muda quando bem entende. Já se viu programa que corta valor de resgate da noite para o dia, categoria que sobe sem aviso, ponto que expira porque você não voou o suficiente. É moeda privada emitida sem lastro, e o titular do saldo não tem representação, não tem recurso, não tem tribunal. Aceita porque a alternativa é abandonar o acumulado. É o mesmo mecanismo psicológico que faz gente aguentar governo ruim porque já pagou imposto demais para simplesmente ir embora.
No fim, cada aliança dessas é um tijolo a mais na muralha que separa o mercado real, aquele onde preço fala a verdade, do teatro em que vivemos, onde marca é gaiola e conveniência é anestesia. O viajante frequente celebra a novidade sem perceber que trocou mais um pedaço da sua autonomia por vantagens que a própria empresa pode retirar quando quiser. A liberdade econômica não morre com um decreto assustador, morre num anúncio bonito de parceria estratégica, aplaudido pela imprensa especializada e engolido pelo cliente com sorriso no rosto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.