A notícia é pequena, quase burocrática: a Iberia vai suspender seus voos diretos entre Madri e Havana a partir de junho, com retorno previsto apenas para novembro, e o motivo alegado é duplo, combustível escasso na ilha e queda na demanda por passagens. Leia de novo devagar. Uma companhia aérea europeia não consegue operar em Cuba porque Cuba não tem querosene suficiente para abastecer aviões comerciais. Estamos falando de um país caribenho, a noventa milhas dos Estados Unidos, com décadas de relações comerciais com a Venezuela petrolífera, que não consegue garantir um insumo básico para que turistas aterrisem em seu território e gastem dinheiro. Se você precisasse de uma metáfora perfeita para o colapso do socialismo real, ela acabou de pousar no seu colo, e depois decolou, porque não tinha combustível para ficar.
Vamos seguir o dinheiro, porque é sempre aí que a história fica interessante. Cuba vive há décadas de três fontes principais de divisas: remessas da diáspora, turismo e o que sobra de acordos bilaterais com aliados ideológicos. O turismo, em especial, era a válvula de escape do regime: o forasteiro chegava, pagava em dólares ou euros, consumia em hotéis estatais, e o dinheiro sumia nos cofres do partido antes de chegar a qualquer trabalhador do setor. O sistema funcionava mal, como todo sistema estatal funciona mal, mas pelo menos funcionava o suficiente para manter a fachada. Agora nem isso. A Iberia sai, outras companhias já reduziram ou zeraram operações, e a ilha vai ficando cada vez mais isolada, não por embargo, não por imperialismo, mas pela simples incapacidade de um Estado monopolista de garantir o funcionamento básico de uma economia.
Existe uma lógica de ferro aqui que ninguém na imprensa convencional tem coragem de enunciar com clareza. Quando o Estado controla tudo, o Estado também quebra tudo. Não porque os homens no poder sejam necessariamente malvados, embora muitos sejam, mas porque nenhum conjunto de burocratas, por mais bem-intencionado que seja, consegue processar a quantidade de informação necessária para coordenar uma economia complexa. O preço do querosene em Havana, a demanda por voos em Madri, a capacidade de refino venezuelana, os custos de frete marítimo, tudo isso são sinais que o mercado livre transmitiria em tempo real e que o planejamento central simplesmente ignora, porque não tem mecanismo para ouvi-los. O resultado não é surpresa para quem pensa com clareza: falta combustível, para o avião, e para a ilha inteira.
A queda na demanda por passagens, o segundo fator mencionado pela Iberia, é igualmente reveladora. O turista não é idiota. Ele pesquisa, compara, avalia relatos de quem foi antes. E os relatos de Cuba nos últimos anos são consistentes: filas para tudo, escassez de alimentos, apagões de doze horas, hospitais sem remédios, hotéis sem água quente. A propaganda revolucionária, que por décadas vendeu a ilha como um paraíso de saúde e educação gratuitas, foi desmentida pelo próprio povo cubano que foge em balsas e pelo visitante que volta sem vontade de repetir a experiência. A demanda cai porque a oferta real, a Cuba que existe fora dos cartazes, é invendável. Nenhum departamento de marketing, por mais criativo que seja, consegue fazer o turista esquecer que ficou sem luz no quarto de hotel enquanto pagava em euro.
E o cubano comum, esse que não aparece no comunicado da Iberia e não tem voz nos fóruns internacionais de solidariedade de esquerda? Ele paga. Sempre pagou. Paga com o salário congelado em pesos que não compram nada, paga com a ausência de perspectiva que empurra seus filhos para o mar, paga com a impossibilidade de receber a visita do familiar que emigrou porque o voo ficou caro demais ou simplesmente deixou de existir. O isolamento de Cuba não é uma política externa imposta de fora: é uma política interna imposta de dentro, mantida por um regime que sabe muito bem que o contato com o mundo livre é o maior inimigo de qualquer ditadura. A falta de combustível é inconveniência para a Iberia. Para o cubano, é mais uma porta que fecha.
A Iberia volta em novembro, talvez, se o combustível aparecer, se a demanda melhorar, se a situação se normalizar. Mas normalidade em Cuba é escassez gerenciada, e escassez gerenciada é o produto final de todo sistema que substitui a liberdade econômica pelo decreto. A grande ironia é que o regime em Havana sobreviveu décadas acusando o capitalismo de explorar o trabalhador, enquanto construía, tijolo por tijolo, o sistema mais eficiente já inventado para mantê-lo pobre, imóvel e dependente. Quem paga? O cubano. Quem recebe? Quem sempre recebeu. A resposta não mudou em setenta anos, só o avião que vai embora é novo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.