Abriu o pregão e a cena é a de sempre nos anos ímpares que antecedem eleição: o Ibovespa oscila não porque uma siderúrgica descobriu um novo processo, não porque uma petroleira achou um poço, não porque uma varejista destravou margem, mas porque saiu uma pesquisa. O chamado trade eleitoral é o nome bonito que se dá para uma anomalia absurda, a de um mercado inteiro que precisa adivinhar quem vai sentar na cadeira de Brasília para saber se compra ou vende ação de empresa que nada tem a ver com política. Quer dizer, quando o preço de uma companhia depende mais do humor do Planalto do que da produtividade do chão de fábrica, alguma coisa muito errada aconteceu com a economia real, e essa coisa tem nome e endereço.
Olha, o petróleo subindo no exterior deveria ser boa notícia num país que se diz autossuficiente e que carrega uma estatal com reservas invejáveis no pré-sal. Deveria. Só que no arranjo brasileiro, petróleo caro lá fora vira dilema doméstico porque a política de preços da estatal deixou de ser política de preços e virou instrumento eleitoral, ora represando reajuste para não irritar o eleitor, ora soltando de uma vez e culpando o mercado internacional pela paulada no posto. O acionista minoritário paga, o motorista paga, o caminhoneiro paga, e o político sorri para a câmera dizendo que está protegendo o povo. Alguém sempre paga, e nunca é quem decide.
O IPCA no radar é o outro personagem dessa novela, e é o personagem que ninguém quer ouvir falar. A inflação não é maldição climática, não é fatalidade cósmica, não é fenômeno da natureza que aparece porque Vênus está retrógrado. Inflação é conta de gastança, é dívida rolada com impressora, é Banco Central segurando juro quando devia apertar e apertando quando devia segurar. Todo real a mais que circula sem lastro em produção é imposto silencioso cobrado do assalariado, do aposentado, do sujeito que guardou dinheiro na poupança acreditando na palavra empenhada de que a moeda serviria como reserva de valor. Não serviu. Nunca serve, quando o dono da caneta tem incentivo para gastar hoje e empurrar a conta para depois.
Me diz uma coisa, quem ganha com essa dança? Siga o rastro. O grande banco que arbitra a curva de juros ganha, o gestor de fundo que surfa a volatilidade ganha, o operador político que troca sinalização por vantagem regulatória ganha, o exportador de commodity que se beneficia de câmbio manipulado ganha. Quem perde é o dono da padaria que não consegue precificar farinha para daqui a três meses, é a família que planeja financiamento e não sabe se a Selic estará em oito ou em quinze, é o jovem que queria empreender e desiste porque o custo do capital no Brasil é castigo bíblico. O mercado financeiro brasileiro não é livre; é um cassino onde a casa é o Estado e as fichas são emitidas por quem escreve o regulamento no meio da partida.
A verdade incômoda que os analistas de terno bem cortado não dizem no jornal da tarde é que essa oscilação eleitoral do Ibovespa é sintoma de um país que terceirizou a economia para a política. Onde a decisão empresarial mais importante não é qual mercado atacar, mas qual candidato apoiar. Onde o balanço de uma empresa se explica menos por sua gestão do que pelo humor do ocupante do palácio. Isso não é capitalismo, é feudalismo com gravata, e os barões locais trocam de dono a cada quatro anos enquanto os servos, esses sim, permanecem os mesmos, pagando dízimo em forma de imposto, tributo, taxa, contribuição, tarifa e inflação.
Enquanto o brasileiro médio for convencido de que a solução está em eleger o messias certo, e não em amarrar as mãos de qualquer messias que aparecer, o Ibovespa vai continuar subindo e descendo conforme a pesquisa, o petróleo vai continuar sendo pretexto para intervenção, e o IPCA vai continuar sendo o carrasco discreto que ninguém elegeu mas que executa a sentença todo santo mês. A liberdade econômica não é bandeira ideológica; é a única vacina conhecida contra esse ciclo interminável de esperança eleitoral seguida de decepção fiscal. E ela não está em nenhuma cédula.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.