A imagem é destas que deveriam constranger qualquer governo que ainda se pretendesse civilizado. Uma senhora de setenta e oito anos, calça surrada de lida no campo, ajoelha-se na terra que cultivou a vida inteira e suplica às máquinas que parem. As máquinas não param, porque máquina não tem ouvido, e o operador, coitado, só cumpre ordem. A ordem vem de um gabinete climatizado em Goiânia, ou talvez em Brasília, onde alguém de gravata assinou um papel chamando aquilo de utilidade pública. Utilidade de quem, exatamente, é a pergunta que ninguém na cerimônia oficial teve coragem de fazer.
A obra é a duplicação da GO-330, entre Catalão e Ipameri, e vem embrulhada no papel celofane de sempre, progresso, desenvolvimento, integração regional, essas palavras que servem para tudo e não significam nada. Por trás do celofane, a coisa é mais prosaica. Há um orçamento, há uma empreiteira que vai faturar, há um político que vai inaugurar placa, há um lobby do agronegócio escoador que pressiona, há fornecedores de asfalto, de britagem, de sinalização, e há, no fim da fila, uma velha senhora cuja existência inteira foi reduzida a um item na planilha de indenizações. Ela é o custo. Os outros são as receitas. Siga o cheque e você encontra a verdade que o discurso esconde.
Chamam isso de desapropriação, palavra técnica polida para descrever o que em qualquer outro contexto receberia nome menos elegante. Se o vizinho aparecesse na propriedade de Maria da Paz com um trator e dissesse que precisa daquele pedaço para passar o caminhão dele, e que pagaria depois um preço definido por ele próprio, o vizinho dormiria na cadeia antes do almoço. Quando o mesmo ato é executado pelo monopolista que se autodenomina representante do interesse coletivo, vira política pública e merece reportagem solene no jornal das oito. A diferença entre o crime e a virtude, no nosso arranjo, é quem está usando o crachá.
O argumento padrão, recitado por todo bacharel formado em manuais de direito administrativo, é que o interesse coletivo prevalece sobre o particular. Belíssima frase, digna de tapeçaria. Só que coletivo é abstração, e a abstração nunca pagou conta de luz nem enterrou marido. Quem existe de verdade são pessoas concretas, com nomes, rugas, escrituras e memórias afetivas. Quando se sacrifica uma pessoa de carne e osso em nome de uma entidade que ninguém nunca viu, o que se está fazendo, na prática, é transferir patrimônio dos identificáveis para os não identificáveis, ou melhor, para os identificáveis que tiveram a esperteza de não aparecer na fotografia. Os beneficiários da rodovia duplicada existem, têm CNPJ e têm contador. Só preferem ficar nos bastidores.
A cena da senhora ajoelhada incomoda porque rompe a anestesia. O processo desapropriatório foi desenhado justamente para que ninguém precise olhar nos olhos da vítima. Há protocolos, prazos, ofícios, perícias, depósitos judiciais, tudo muito asséptico, tudo muito impessoal, para que o servidor que assina possa ir dormir tranquilo achando que cumpriu uma etapa burocrática. Quando a velha senhora se ajoelha, ela arranca o crachá, rasga o protocolo e devolve à cena seu nome próprio. É violência, pura e simples, e o aparato inteiro existe para que ninguém a chame assim. A burocracia é a maquiagem da força.
Dirão que ela será indenizada, e talvez seja, com o valor que o avaliador oficial achar justo, descontados honorários, prazos do precatório e a inflação que o próprio governo fabrica enquanto a senhora espera o cheque. Dirão também que era inevitável, que a rodovia precisa ser duplicada, que sem progresso o país não anda. Curioso que o país que mais asfalto produz por habitante seja exatamente aquele em que andar de joelhos diante do trator virou recurso jurídico de última instância. Talvez o problema não seja a senhora teimosa. Talvez seja o arranjo inteiro que confundiu construir estrada com pisar em gente, e que aprendeu a chamar isso de modernidade enquanto a Maria da Paz, ajoelhada, mostra ao Brasil o que sobrou da promessa republicana de que a casa do cidadão era seu castelo. Castelo, no caso, com pedágio na entrada e escavadeira na sala.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.