Três milhões e oitocentos e cinquenta mil álbuns e pacotinhos despachados pelo mesmo aplicativo que, em tese, existe para entregar marmita quente na sua porta. A Copa ainda nem começou, o hino brasileiro ainda não foi entoado de boca fechada por jogador milionário, e o brasileiro médio já se entupiu de figurinha numa proporção 1.500% maior que em 2022. Repita o número devagar, com a calma de quem mastiga um osso: mil e quinhentos por cento. É o tipo de salto que economista honesto olha de banda, porque sabe que crescimento dessa magnitude não vem do bolso, vem da torneira.
Sigamos o dinheiro, que é o único santo que não mente. A Panini imprime papel colorido na Itália e vende como se fosse relíquia bizantina. O aplicativo cobra sua taxa por intermediar a venda. O entregador, coitado, pedala na chuva levando envelope de figurinha como se fosse insumo hospitalar. E o consumidor, esse personagem trágico das fábulas modernas, paga em parcelas mentais o álbum, os pacotes para completar o álbum, os pacotes extras porque saiu repetida, e os pacotes finais porque o Neymar brilhante não aparece e a alma exige reparação. No fim da cadeia, quem paga é sempre o mesmo sujeito de sempre, aquele que reclama do preço do arroz mas não reclama de gastar duzentos reais em adesivos plastificados.
Há uma pergunta que ninguém faz, e talvez por isso valha a pena fazê-la em voz alta: de onde sai esse dinheiro? Não cai do céu. Não brota do trabalho honesto produzindo a mais. Sai do crédito barato que o banco central jogou na praça nos últimos anos, sai do auxílio emergencial que virou auxílio permanente, sai do parcelamento sem juros que finge não ter juros, sai daquela sensação difusa de que o dinheiro precisa ser gasto rápido antes que perca valor, sensação correta, aliás, num país onde a moeda derrete na carteira como sorvete em pleno janeiro. Quando o povo prefere figurinha a poupança, a economia já confessou o crime sem precisar de delegado.
O fenômeno, aliás, é antigo como Roma. Quando o império começou a apodrecer por dentro, o expediente foi simples: pão e circo, distribuídos pelos césares para que o cidadão esquecesse que tinha sido despojado da propriedade, da liberdade civil e da capacidade de cobrar contas dos governantes. Hoje o pão vem em saquinho de delivery e o circo vem em pacotinho de figurinha, mas a função sociológica é a mesma. Enquanto o sujeito procura desesperado a estampa do meio de campo titular, ele não está se perguntando por que a gasolina subiu, por que o supermercado encolheu a embalagem, por que o salário mínimo compra metade do que comprava na infância. A figurinha é o ópio brilhante, e a Copa é a missa pagã onde se distribui a hóstia adesiva.
Não há nada de errado em alguém querer um álbum. Cada um gasta o seu como bem entende, e a liberdade do bolso é sagrada, mesmo quando o bolso decide se torrar em bobagem. O escândalo não está no consumidor, está no arranjo. Está no entusiasmo coletivo que trata um crescimento de mil e quinhentos por cento como sintoma de saúde, quando é sintoma de febre. Está na grande imprensa que celebra o número como se fosse PIB industrial, quando é apenas o termômetro de uma sociedade que troca cálculo econômico por reflexo emocional. Está na ilusão de que estamos ricos porque conseguimos comprar tranqueira, quando na verdade só conseguimos comprar tranqueira porque tudo que importa, casa própria, escola decente, segurança na rua, virou luxo inacessível.
No fim, quem ganha com a festa adesiva é a indústria italiana que vende papel, é a plataforma que cobra comissão sobre cada pacotinho, é o publicitário que vai engordar portfólio com o case da temporada, e é o governo que adora ver o povo distraído com bobagem enquanto aprova o orçamento secreto da próxima semana. Quem perde é o de sempre, o sujeito que daqui a três meses vai abrir o álbum incompleto numa gaveta, olhar para aquele Mbappé faltando, e sentir, sem saber explicar, que foi roubado em algum ponto da transação. Foi mesmo. Só não foi pela Panini.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.