Quatro pessoas morreram queimadas num prédio residencial de Nova York, sete ficaram feridas, e o acusado de atear o fogo, um mexicano em situação ilegal, pode simplesmente ser devolvido às ruas porque a prefeitura fez questão de construir um muro jurídico entre a cidade e as autoridades federais de imigração. Chama se isso de política de santuário, expressão bonita que serve para o mesmo truque semântico que transformou confisco em tributação e censura em moderação de conteúdo. Santuário para quem, exatamente? Para as quatro famílias que agora escolhem caixão, ou para o homem que, segundo a denúncia, transformou um corredor em crematório?
A engrenagem é simples e merece ser descrita com a frieza de um manual de montagem. Um indivíduo entra no país por fora das regras. É preso por um crime hediondo. O órgão federal pede à cidade que o entregue quando ele sair da custódia local. A cidade responde que não, porque tem uma lei municipal proibindo essa cooperação. O preso é solto. O ciclo se fecha como uma porta de celular automático. O que parece disfunção é, na verdade, desenho. O sistema está funcionando exatamente como foi programado por quem o programou, e o defeito, se é que se pode chamar assim, é característica do produto, não falha.
Convém seguir a rota do dinheiro e dos votos, porque toda política pública irracional só parece irracional até se descobrir quem lucra com ela. A cidade de Nova York mantém uma máquina enorme de serviços sociais, ONGs conveniadas, escritórios de advocacia pró bono financiados por filantropia bilionária, sindicatos de servidores públicos e uma coalizão eleitoral que depende de uma narrativa permanente de acolhimento. Cada imigrante processado dentro desse ecossistema é, em termos contábeis brutais, uma unidade de financiamento, um voto potencial, um beneficiário que consome orçamento e justifica cargos. Recusar cooperar com o governo federal não é gesto humanitário, é proteção de patrimônio administrativo. O humanitarismo é a embalagem; o conteúdo é o cofre.
E o contribuinte, sempre ele, paga duas vezes. Paga uma vez em impostos municipais para sustentar a estrutura que escolhe não aplicar a lei federal de imigração. Paga a segunda vez em vidas, em medo, em aluguel elevado para morar em bairros onde a polícia ainda ousa ser polícia. O custo da virtude sinalizada pelos gabinetes cai inteiro no colo de quem pega metrô às seis da manhã, e nunca no colo de quem decide a política dentro de um apartamento vigiado em Manhattan. Há quase um padrão litúrgico nisso, uma repetição que já foi vista em outros lugares e épocas: aristocratas morais decretando compaixão com a pele dos plebeus, generais romanos votando guerras que seriam lutadas por filhos de camponeses. Nada de novo debaixo do sol, apenas aspirantes frescos aos mesmos truques velhos.
O silogismo é vulgar de tão simples. Se uma cidade impede a extradição de suspeitos de crimes graves por razões ideológicas, e se entre esses suspeitos existem homens perigosos, então, necessariamente, algum desses homens perigosos voltará às ruas e algum morador pagará a conta com sangue. Esta é a conclusão, não a hipótese. Chamar o resultado de tragédia imprevisível é um insulto à aritmética. Os incêndios num prédio em Nova York, os ataques aleatórios no metrô, as agressões nas plataformas, tudo isso não cai do céu como meteoro, é precipitado químico de decisões tomadas em atas municipais, sessões de câmara, editoriais elogiosos e doações de fundações que adoram a palavra justiça social quando ela aparece longe do condomínio delas.
Resta a pergunta que abriu e que agora fecha a conversa. Quem paga? O inquilino carbonizado, a família que enterra vazio, o trabalhador que sobe a escada do andar pegando fogo, o policial que cumpre a lei pela metade porque a outra metade foi proibida. E quem recebe? O político que coleciona aplausos em gala de caridade, o administrador público cujo orçamento cresce a cada nova crise, a coalizão eleitoral que precisa de vítimas permanentes para manter o discurso vivo, a imprensa que escreve sobre compaixão enquanto passa por cima dos corpos. O rei está nu, como sempre esteve, e o espelho do palácio continua jurando que ele veste armadura. Rir é a única higiene que ainda sobra antes da próxima chama.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.