Amanheceu em ruínas nesta segunda-feira a Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha. O templo, erguido em 1912 pelas mãos calejadas dos imigrantes italianos que arrancaram do mato fechado uma cidade inteira, foi devorado por um incêndio que praticamente nada deixou de pé. Treze décadas de história, de batizados, casamentos, velórios e novenas, transformadas em fuligem entre o jantar e a aurora. Aquilo que três gerações de colonos construíram com a poupança suada de quem amassava a polenta no tacho, o fogo levou enquanto a cidade dormia.

Convém olhar para o que aquela igreja era antes de virar manchete. Não foi o governo federal que a ergueu, nem a prefeitura, nem qualquer secretaria de cultura. Foi gente comum, lavradores que vinham de Vêneto e Trento com a mala de papelão e uma mula emprestada, que tirou pedra do rio, cortou madeira da mata e empilhou tijolo sobre tijolo, doando vinho, queijo e horas de trabalho para que a comunidade tivesse onde se reunir. A propriedade era, no sentido mais radical e mais bonito da palavra, deles. Construíram do próprio bolso, sem edital, sem inscrição em chamamento público, sem consultoria contratada por dispensa de licitação.

Agora compare isto com o que veio depois. A mesma comunidade que ergueu a matriz passou décadas pagando IPTU, ICMS embutido no cimento da reforma, INSS do zelador, contribuição sindical do pedreiro, taxa de bombeiros, taxa de alvará, taxa de vistoria, taxa de licença sanitária para a festa da padroeira, mais a Cide do óleo diesel do micro-ônibus que trazia os fiéis da colônia. Pagou tudo, em silêncio, ano após ano, e o que recebeu em troca quando o fogo subiu? A pergunta é cruel porque a resposta é óbvia. O Estado é genial em cobrar pelo serviço que nunca presta, e absolutamente prodigioso em aparecer, depois da tragédia, para fotografia.

É de praxe, nestas horas, ouvir o lamento das autoridades, o decreto de luto oficial, a promessa de verba para a reconstrução, a comitiva de paletó pisando nas cinzas com cara compungida. Repare bem no roteiro, porque é sempre o mesmo. Vão anunciar um programa de restauro com nome pomposo, vão criar uma comissão, vão exigir laudo do Iphan, vão contratar empresa de fachada com sócio oculto em Brasília, e vão prometer entregar a obra em prazo que ninguém vai cumprir. No fim, quem paga a recuperação do que era da comunidade vai ser a própria comunidade, duas vezes: uma pelo imposto que custeia a burocracia da reconstrução, outra pela vaquinha que a paróquia vai abrir porque o dinheiro público, pelo caminho, evaporou.

Há aqui uma lição que os colonos do começo do século passado entendiam melhor do que qualquer ministro da Cultura. Patrimônio não se preserva por decreto, preserva-se por afeto e por propriedade. Quando uma coisa é genuinamente de alguém, esse alguém cuida. Quando vira tombamento, vira estatística, vira processo administrativo, vira nada. A matriz de Flores da Cunha resistiu ao tempo, à inflação, ao milagre econômico, à ditadura, à redemocratização e a sete planos econômicos justamente porque era da comunidade. Sobreviveu ao Estado por mais de cem anos, e talvez seja apenas coincidência terrível que tenha se rendido ao fogo no exato momento histórico em que a sociedade civil brasileira terceirizou tudo, inclusive a memória, para o aparelho público.

Que se reconstrua, sim, e que se reconstrua rápido. Mas que os fiéis prestem atenção em quem aparecer com a chave do cofre na mão oferecendo ajuda. Toda esmola pública vem com coleira, e a coleira aperta justamente onde dói: na autonomia da paróquia, no controle do bem, na decisão sobre o que pode ou não pode ser feito naquele espaço. A história ensina que o caminho mais curto para perder o que é seu é aceitar que um estranho de gravata pague a conta. Os bisavôs daqueles colonos sabiam disso quando construíram a igreja sem pedir licença a ninguém. Convém que os bisnetos lembrem antes de assinar qualquer convênio.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.