O Nikkei cruzou os sessenta mil pontos e a manchete global tratou o evento como vitória do chip e da diplomacia, como se semicondutor e cessar-fogo tivessem, sozinhos, o poder de dobrar um índice em três anos. Convém lembrar que a mesma bolsa, em dezembro de 1989, fechou perto dos quarenta mil pontos e levou trinta e quatro anos para recuperar aquela altura. Agora, em questão de meses, despachou mais vinte mil pontos acima do antigo pico. A pergunta honesta, aquela que nenhum analista de gravata faz em rede nacional, é simples: o que mudou na produtividade japonesa para justificar tamanha euforia, ou mudou apenas a quantidade de ienes circulando no mundo?
O Banco do Japão passou duas décadas imprimindo dinheiro com a voracidade de quem tenta apagar incêndio com gasolina. Taxa de juros negativa, compra direta de ETFs na bolsa, balanço do banco central maior que o PIB nacional, tudo em nome de uma inflação que nunca vinha e de um crescimento que nunca chegava. Quando o iene finalmente desabou frente ao dólar, a exportadora japonesa virou artigo de liquidação no exterior e a bolsa, denominada em moeda derretida, subiu como termômetro em forno. Chamam isso de recuperação. O nome técnico, no dicionário dos honestos, é confisco silencioso do poupador japonês em benefício do acionista estrangeiro.
Siga o dinheiro e a mágica se dissolve. Quem comprou Nikkei a vinte mil em 2012 e vê hoje sessenta mil não ficou três vezes mais rico em poder de compra internacional, porque o iene perdeu quase metade do valor no caminho. A festa é contábil, não patrimonial. Beneficia o fundo soberano que operava alavancado, o executivo da Toyota com bônus atrelado a ações, o banco central que agora pode vender ETF sem prejuízo aparente, e sobretudo o governo de Tóquio, cuja dívida gigantesca fica mais leve quanto mais a moeda encolhe. Perde o aposentado que guardou em caderneta, o assalariado cuja energia importada ficou cara, o jovem japonês que descobriu que morango e carne bovina agora são luxo.
Somem a isso o capítulo geopolítico, vendido como se a trégua iraniana fosse presente de Natal para os mercados. Trégua é pausa, não paz, e paz artificial sustentada por porta-aviões é contrato de manutenção caríssimo pago pelo contribuinte americano e europeu, repassado ao consumidor global via preço do barril. A bolsa comemora o cessar-fogo como se petróleo barato fosse direito adquirido, esquecendo que cada míssil não disparado hoje é munição estocada para a próxima rodada. Mercado que precifica esperança em vez de fato é cassino, não termômetro econômico.
Existe ainda a parte cômica, que merece registro. Os mesmos comentaristas que, anos atrás, pregavam a morte do modelo japonês e lamentavam a década perdida, hoje descobrem virtude no experimento monetário de Tóquio e sugerem que Washington, Frankfurt e Brasília façam o mesmo. É a eterna lógica do alquimista: se transformar chumbo em ouro não deu certo até agora, é porque ainda não tentamos com fogo suficiente. Ninguém pergunta por que um país que imprime há trinta anos precisa importar trabalhador, congelar salário real e conviver com demografia em colapso. A narrativa oficial prefere o gráfico ascendente ao balanço honesto.
No fim das contas, o Nikkei a sessenta mil não conta a história do triunfo da tecnologia japonesa nem da diplomacia astuta. Conta a história de quem ganha quando a régua encolhe: o Estado endividado, o conglomerado exportador, o especulador alavancado. E de quem paga a conta: o poupador silencioso, o assalariado paciente, o aposentado que achou que tinha feito tudo certo. Enquanto o telejornal celebrar número nominal como se fosse riqueza real, siga fazendo a pergunta que incomoda: quem paga, quem recebe, e por que o aplauso é sempre mais barulhento do lado de quem recebe.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.