Antes do encontro entre Trump e Xi Jinping, a General Motors, a Ford e a Stellantis se juntaram num coro lamurioso pedindo ao governo americano que mantenha as montadoras chinesas do outro lado do muro tarifário. O argumento oficial, embrulhado em bandeira e discurso de segurança nacional, é que a BYD e companhia representam ameaça estratégica. O argumento real, aquele que ninguém coloca no comunicado à imprensa, é que Detroit não consegue mais fabricar um carro elétrico competitivo sem pedir esmola em Washington, e sabe disso.
Convém lembrar como chegamos aqui. A mesma indústria automobilística americana foi resgatada com dinheiro do contribuinte em 2009, recebeu créditos fiscais bilionários para eletrificação nos anos seguintes, engoliu subsídios da era Biden para bateria doméstica, e agora, depois de todo esse banquete de recursos alheios, chega ao ponto em que precisa proibir a concorrência para não quebrar. Isso não é capitalismo. Isso é um cartel com selo federal, sustentado por gente que nunca comprou um carro do modelo que estão obrigados a subsidiar.
O truque retórico é elegante. Chame o concorrente de ameaça à segurança nacional e ninguém ousa questionar. Se um sedan chinês de trinta mil dólares com autonomia de seiscentos quilômetros entra no mercado americano, a GM tem duas opções: fazer um produto melhor, ou impedir que o consumidor tenha a chance de escolher. Escolheram a segunda, como sempre. E o governo, que deveria proteger o cidadão do abuso, protege o abusador do cidadão. A conta, essa, chega pelo bolso de quem vai pagar quarenta mil dólares por um carro pior porque a alternativa foi banida antes de chegar à concessionária.
Existe uma versão pitoresca dessa história repetida ao longo de dois séculos. Sempre que uma indústria estabelecida se sente ameaçada por concorrência mais eficiente, o roteiro é o mesmo: primeiro vem o apelo patriótico, depois o argumento da segurança, em seguida a alegação de práticas desleais, e no fim o pedido de tarifa. Aconteceu com o aço, com o têxtil, com o açúcar, com a laranja. Em nenhum caso o consumidor saiu ganhando. Em todos, o lobista saiu com contrato renovado e o político com o cheque de campanha assinado.
E o mais delicioso da hipocrisia é notar que a China, esse suposto vilão do livre mercado, virou o assunto do dia justamente porque seus fabricantes conseguiram, por baixo custo, escala e engenharia agressiva, aquilo que o americano prometeu por décadas e não entregou. A resposta madura seria abrir o mercado e forçar Detroit a acordar. A resposta escolhida vai ser fechar o mercado e deixar Detroit dormir mais um pouco, sonhando com o próximo pacote de ajuda federal. Trump pode até negociar bem com Xi no jantar, mas o freguês que vai pagar a conta é o mesmo americano de sempre, com o mesmo bolso furado de sempre, comprando o mesmo produto caro de sempre.
Protecionismo nunca salvou uma indústria, só adiou o enterro e engordou o coveiro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.