A notícia chega com a naturalidade de quem já desistiu do pudor. O partido com mais tempo de máquina pública no país acaba de apresentar uma leva de influenciadores digitais como pré-candidatos a deputado federal e estadual, com a ambição declarada de cobrir os 26 estados mais o Distrito Federal. Traduzindo para o português que o comunicado oficial evita: a legenda olhou para o próprio quadro de militantes históricos, para os sindicalistas calejados, para os vereadores que subiram pela base, e concluiu que tudo aquilo rende menos voto que um sujeito de ring light explicando a reforma tributária em trinta segundos de vídeo vertical.
Há uma beleza quase didática nessa conversão. Durante décadas se vendeu a ideia de que política era consciência de classe, formação teórica, organização territorial, leitura de cartilha em círculo no sindicato. Pois bem, desapareceu. O que sobrou foi o cálculo frio do algoritmo: quem tem audiência, entra; quem tem bandeira, fica no grupo de WhatsApp. O palanque virou timeline e o comício virou live. E está tudo certo, desde que o espectador não confunda mudança de meio com mudança de propósito. O propósito continua exatamente o mesmo de sempre, que é chegar onde se aprova orçamento, porque é ali, e somente ali, que o dinheiro alheio muda de dono com assinatura legal.
Convém lembrar, entre uma indignação e outra, como funciona a engrenagem. O influenciador recrutado não está ali por caridade nem por iluminação cívica. Ele troca alcance por estrutura partidária, fundo eleitoral, tempo de rádio e televisão, advogado de campanha e, se der certo, mandato de quatro anos com salário de trinta e cinco mil reais, verba de gabinete de cento e poucos mil mensais, vinte e cinco assessores, passagens, diárias, cota postal e aquela coisinha chamada emenda parlamentar que virou o verdadeiro objeto de desejo do Congresso. O partido, por sua vez, troca legenda por audiência pronta, terceiriza a militância e economiza o trabalho lento de formar quadro. É uma fusão empresarial travestida de renovação.
O mais saboroso é o discurso que acompanha o movimento. Fala-se em oxigenar a política, aproximar a juventude, diversificar representações, como se a novidade estivesse no perfil do candidato e não na capacidade comprovada de converter likes em cadeiras. Quem paga essa festa é sempre o mesmo sujeito, o pagador de imposto, que financia fundo partidário, fundo eleitoral, horário gratuito que de gratuito só tem o nome, e ainda sustentará o mandato dos eleitos mais toda a infraestrutura que vem atrás. Quem recebe também é sempre o mesmo grupo, agora com cara nova e filtro bonito: a casta que vive de mediar o acesso ao orçamento público. Mudou a roupa, o script continua.
Há ainda o detalhe técnico, digno de nota. Influenciador vive de polarização, de recorte, de frase curta que viraliza. Legislar exige exatamente o oposto: leitura paciente, negociação obscura, técnica jurídica, entendimento de decreto, de portaria, de artigo de lei orgânica. Eleger gente treinada para o curto prazo do engajamento e colocá-la para decidir tributo, previdência, segurança pública e política monetária é o equivalente a contratar um garçom pelo sorriso e descobrir, tarde demais, que ele nunca cozinhou. Só que aqui a conta do prato queimado sai em nome do contribuinte, parcelada em gerações.
No fim da história, o que se vende como modernização é apenas a atualização do mesmo golpe. A máquina precisa de rostos novos porque os antigos estão gastos, a audiência migrou da televisão aberta para o celular, e o sistema eleitoral que confunde popularidade com legitimidade adora quem já chega com seguidor contado. Aprova-se como renovação aquilo que é, na prática, a industrialização final da política, com linha de montagem, fornecedor terceirizado e cliente cativo. O cliente cativo, sempre, é quem paga imposto e fica em silêncio. Ri quem passa o cartão, chora quem assina o boleto, e o espetáculo segue vendendo ingresso para a própria plateia pagar o palco onde será encenada a sua ruína.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.