O Instituto Nacional de Meteorologia soltou um alerta laranja para nove Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste neste sábado, prometendo chuvas entre trinta e sessenta milímetros por hora e rajadas de vento beirando os cem quilômetros por hora. Impressionante a precisão do aviso; comovente a inutilidade prática dele. O cidadão recebe no celular a notificação de que vai ser castigado pelo céu, e isso é vendido como serviço público de ponta. Um camponês medieval, olhando o horizonte escurecer, sabia exatamente a mesma coisa, e não precisava de ministério, de sigla, de orçamento anual nem de assessoria de imprensa para concluir que era hora de recolher as galinhas.
A pergunta incômoda, que ninguém na imprensa oficial ousa fazer, é a seguinte: se o instituto prevê, e prevê com antecedência, por que as cidades continuam sendo varridas como se fossem surpreendidas pelo primeiro dilúvio da História? A resposta é vulgar e aritmética. O dinheiro do imposto, aquele que sai do bolso do pedreiro e do dono da padaria sob o pretexto nobre de financiar a proteção coletiva, não chega ao bueiro entupido nem à encosta que vai desabar. Chega na folha de pagamento inchada, no cargo comissionado, no veículo oficial, no seminário internacional sobre mudanças climáticas em hotel cinco estrelas. O bueiro, coitado, continua com a mesma boca torta desde a última eleição municipal.
Há aqui um silogismo que dispensa sofisticação. Se o Estado arrecada rios de dinheiro em nome da prevenção de desastres, e se, a cada chuva minimamente forte, cidades inteiras viram caldo de lama, então ou o dinheiro não está sendo aplicado, ou o aparelho é estruturalmente incapaz de aplicá-lo, ou ambos. Não existe quarta hipótese. A premissa maior é a arrecadação recorde; a menor, a tragédia recorrente; a conclusão, inevitável, é o desvio, a incompetência ou a farsa. Escolha o verbete no dicionário que preferir; o cheiro é o mesmo.
Observe o teatro que se monta depois que a água baixa. Prefeito de capacete, governador de galocha, ministro de helicóptero sobrevoando o barro alheio, todos apontando o dedo para o fenômeno natural como se chuva forte fosse novidade em país tropical. Quem conhece um pouco de história sabe que os romanos canalizavam rios dois mil anos atrás com um décimo da tecnologia atual e cem vezes menos burocracia. O que lhes faltava em planilha sobrava em responsabilidade direta; quando um aqueduto caía, alguém era julgado. Hoje, quando um morro soterra sessenta pessoas, convoca-se uma comissão para estudar o ocorrido e apresentar o relatório no próximo ciclo orçamentário, ou seja, depois do próximo morro que vai cair.
E há o aspecto moral da coisa, que é o mais repugnante de todos. O alerta laranja funciona como álibi preventivo. Avisou-se, portanto, lavam-se as mãos. Se a casa foi levada, a culpa é do clima, do aquecimento global, do capitalismo predatório, do vizinho que não reciclou garrafa pet, de qualquer coisa, menos do sujeito que recebeu trinta mil reais por mês para garantir que a galeria pluvial estivesse limpa. A responsabilidade se dilui no ar úmido, e o contribuinte, esse personagem eternamente infantilizado, recebe a fatura tripla: paga o imposto que não vira obra, paga o seguro da casa alagada e paga ainda o reboco depois. Três vezes otário no mesmo temporal.
Então voltemos ao começo, porque é sempre aqui que se volta. Quem paga o alerta laranja? O cidadão comum, via tributo. Quem recebe? A máquina que transforma previsão meteorológica em press release e press release em orçamento maior no ano seguinte. A chuva passa, o vento amaina, o sol volta, e a única coisa que cresce com a mesma regularidade dos milímetros por hora é o apetite da estrutura que prometeu, e não entregou, proteger você do próprio céu. Nisso, pelo menos, a burocracia é meteorologicamente infalível.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.