Cento e trinta proposições parlamentares sobre o INSS desde janeiro. Parece muito. É muito. Mas o número impressionante não é esse, é outro: o INSS arrecadou, em 2025, algo próximo de um trilhão de reais entre contribuições previdenciárias e transferências do Tesouro, e nenhum dos cento e trinta parlamentares que agitaram papel na Câmara propôs devolver um centavo sequer ao trabalhador que foi obrigado a pagar. A farra da fiscalização é, no fundo, uma disputa sobre quem controla o cofre, não uma cruzada pela moralidade administrativa.
Convém entender a mecânica antes de se emocionar com o teatro. O INSS não é uma instituição de previdência no sentido que um adulto entenderia a palavra. É um esquema de transferência compulsória administrado por indicados políticos, no qual o trabalhador da ativa financia o benefício do aposentado de hoje com a promessa de que a próxima geração fará o mesmo por ele amanhã. Todo banco privado que operasse desta forma estaria na cadeia por pirâmide financeira. O Estado opera às claras e chama de solidariedade. O truque semântico tem séculos de uso e nunca perde a utilidade.
Waller saiu porque o desgaste legislativo pesou na balança presidencial. É isso que dizem os bastidores, conforme o noticiário. Traduzindo para o vernáculo honesto: havia parlamentares insatisfeitos com a distribuição dos favores internos, o fluxo de contratos, as indicações de cargos, a agenda de benefícios que o órgão gerencia. O INSS tem vinte e quatro mil servidores, uma rede de agências que cobre cada município do país e uma clientela cativa de quarenta milhões de beneficiários. Quem nomeia o presidente dessa estrutura não está fazendo favor ao cidadão. Está colocando a mão num dos maiores mecanismos de poder do Brasil republicano.
A história é conhecida em qualquer latitude. Toda vez que um monopólio estatal acumula dinheiro suficiente para afetar eleições, o parlamento descobre subitamente sua vocação fiscalizatória. Os dezesseis requerimentos de informação protocolados desde janeiro não nasceram de indignação cívica. Nasceram de negociação fracassada, de cargos não concedidos, de contratos que foram para o grupo errado. A retórica da transparência é o pretexto; o objeto real é a cadeira. Sempre foi assim, desde as primeiras câmaras coloniais que fiscalizavam os monopolistas régios exatamente até o ponto em que conseguiam fatia do negócio.
O trabalhador que paga o INSS compulsoriamente, sem poder optar por outro sistema, sem poder resgatar o capital acumulado, sem garantia real de que receberá o benefício prometido, esse trabalhador não aparece nas cento e trinta proposições. Aparece no orçamento como fonte, não como destinatário do esforço parlamentar. A pergunta que ninguém faz na Câmara é a única que importa: se a previdência fosse voluntária e o trabalhador pudesse levar seu dinheiro para onde quisesse, quantos escolheriam o INSS? A resposta a esse exercício mental explica por que a pergunta nunca é feita.
Lula trocou o presidente do INSS. A imprensa cobriu como crise. O parlamento se acalmou. O trabalhador continua pagando. O novo presidente tomou posse com discurso de responsabilidade e eficiência. Daqui a dois anos, outros dezesseis requerimentos de informação. Outra troca de cadeira. Outra cobertura de crise. O esquema é sólido porque a participação do cidadão nele é compulsória e a fiscalização sobre ele é interna ao próprio grupo que dele se beneficia. Isso não é uma falha do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.