A cena tem o sabor amargo das comédias de mau gosto. Enquanto investigações ainda fumegam sobre descontos suspeitos nos benefícios de aposentados, o Instituto Nacional do Seguro Social reativa, com pompa burocrática, o acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, entidade umbilicalmente ligada ao partido que hoje ocupa o Planalto. Não é um detalhe administrativo, é um gesto. O equivalente a reconduzir o gato à chefia da peixaria, depois de flagrá-lo com o focinho cheio de escamas, e ainda exigir que os fregueses aplaudam a sabedoria do gerente.

Para entender o tamanho da piada, convém olhar a anatomia do esquema. O aposentado rural recebe seu benefício, e a entidade, com a mansa autorização do INSS, desconta uma mensalidade associativa direto na fonte. O idoso, que mal lê o extrato, descobre tarde que financia uma estrutura sindical da qual nunca pediu para fazer parte. Multiplique isso por milhões de benefícios e está montado um dos mais elegantes sistemas de tributação privada já criados no país, sem necessidade de votar imposto no Congresso, sem precisar carimbar guia, sem dar satisfação a ninguém. O Estado empresta o cano, e o cano puxa.

A pergunta civilizada, aquela que toda criança aprende antes de ser corrompida pela vida adulta, é singela: quem paga e quem recebe? Paga o lavrador de mãos calejadas, que sustentou a casa com o suor de quatro décadas. Recebe a burocracia confederativa, com sede em Brasília, salas climatizadas e uma agenda política que coincide, por milagre estatístico, com a do partido que controla o Ministério da Previdência. Coincidência é palavra forte. Aqui, é mais honesto chamar pelo nome certo, fisiologia.

O argumento oficial será o de sempre, o da representação dos trabalhadores, da tradição histórica, da função social. Sempre que aparece a função social, vale conferir os bolsos. Toda política que se vende como bondade abstrata costuma esconder, no fundo do prato, um cardápio concreto de beneficiários. Se o vínculo fosse mesmo de representação genuína, bastaria que o associado autorizasse expressamente o desconto, com assinatura, biometria, confirmação por escrito, qualquer salvaguarda contra o saque silencioso. O fato de a engenharia operar no automático, com presunção de adesão, denuncia que o objetivo nunca foi servir o filiado, mas drená-lo.

Há, ainda, o detalhe estético que merece um sorriso. Reativa-se a parceria justamente no momento em que se deveria isolá-la, periciá-la, esmiuçá-la. É como tirar o lacre da delegacia para que o suspeito volte a usar a mesma chave. A pressa em normalizar o que ainda cheira mal revela menos sobre a entidade investigada e mais sobre quem decide pela reativação. Governos que precisam dessas pontes para irrigar suas bases não as cortam nunca, apenas trocam de placa quando o escândalo aperta. Passada a tempestade, a placa volta, e a tubulação segue intacta.

O resumo do enredo cabe em uma frase. Constrói-se, em nome dos pobres do campo, um mecanismo que transfere recursos dos pobres do campo para uma máquina política urbana que jamais empunhou enxada. O nome técnico disso, no jargão dos manuais, é redistribuição. O nome popular, o que se diz no boteco quando ninguém está gravando, é outro, e bem mais curto. Enquanto o aposentado paga a conta sem saber, alguém em Brasília brinda à reativação. O rei está nu, e o rei dança.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.