O anúncio veio com aquele verniz de futurismo que já cansou: a Intapp lançou um plug-in que despeja o conteúdo do DealCloud, plataforma que organiza dados de private equity, banco de investimento, consultoria e advocacia empresarial, direto na janela do ChatGPT. Agora o analista júnior, em vez de abrir a planilha, ler o memorando e pensar no negócio, pergunta ao robô e recebe a resposta pronta. Chamam isso de produtividade. É outro nome.

Quer dizer, o setor que passou décadas cobrando comissões estratosféricas justamente porque, supostamente, entregava julgamento humano refinado, agora terceiriza esse julgamento para um modelo estatístico treinado em texto genérico da internet. A tese comercial de Wall Street sempre foi que o gestor bilionário sabia algo que você não sabia. Se o que ele sabe agora sai da mesma caixa preta que responde receita de brigadeiro para adolescente no TikTok, alguém precisa explicar por que a taxa de administração continua onde está.

Siga o dinheiro, que a coisa fica interessante. A Intapp cobra assinatura corporativa cara, a OpenAI cobra tokens, os bancos cobram fee, e no fim da fila está o cotista do fundo de pensão pagando três camadas de intermediário para que um estagiário digite prompt. O ganho de eficiência prometido raramente chega ao cliente final, ele evapora na margem de quem vende a ferramenta e de quem cobra pelo assessoramento. É o velho arranjo: automatiza-se o trabalho, mantém-se o preço, embolsa-se a diferença.

Há também o problema que ninguém quer olhar de frente. Modelo de linguagem não raciocina sobre risco, ele prevê a próxima palavra provável. Quando um comitê de crédito começa a delegar a triagem preliminar de operações a um sistema desses, cria-se um ponto único de falha ideológico: milhares de decisões, no mercado inteiro, passam a nascer do mesmo viés estatístico. Foi assim que se construíram as bolhas anteriores, todo mundo usando o mesmo modelo de risco, todo mundo comprando o mesmo ativo, todo mundo surpreso quando a música parou. A homogeneização do pensamento é o antônimo do mercado.

E note o detalhe que o release omite com elegância: os dados sensíveis de operações confidenciais, cláusulas de M&A, informação privilegiada por definição, agora transitam por um pipeline que passa por servidores de uma empresa privada americana sujeita a intimações, ordens judiciais e vazamentos. Advogado que assina termo de confidencialidade e depois joga a minuta no ChatGPT corporativo está, na melhor das hipóteses, sendo ingênuo. Na pior, está terceirizando o sigilo profissional para quem nunca prestou juramento nenhum.

O que se vê é a manchete bombástica sobre inovação. O que não se vê é o custo escondido, o julgamento humano atrofiando, a concentração de risco cognitivo, a assimetria informacional invertida a favor de quem controla o modelo, e a conta final chegando, como sempre, para quem nunca pediu para participar da festa. Chamam de revolução tecnológica. É apenas mais uma rodada do mesmo truque: vender atalho como sabedoria e cobrar pedágio pela preguiça alheia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.