Vinte dias em Roma, hospedagem na Piazza di Spagna com diária superior a quinze mil reais, e a Interpol respirando no cangote da influenciadora que ficou famosa por empurrar apostas online para a peãozada brasileira. O quadro é tão prosaicamente brasileiro que beira a paródia. A advogada que enriqueceu vendendo a ilusão do dinheiro fácil para o sujeito que ganha salário mínimo torrava, num único pernoite, o equivalente a mais de dez salários do otário que clicava no link patrocinado. Enquanto isso, agentes públicos pagos com imposto seguiam o rastro da musa pelas ruelas do Trastevere. Você, claro, custeou a passagem dos dois lados da equação: o luxo dela, indiretamente, e a vigilância sobre ela, diretamente.

Faz tempo que o esquema das bets deixou de ser apenas a roleta digital do azarado. Virou um aspirador de pó turbinado, sugando renda dos bolsos mais pobres e despejando milhões nas contas de uma casta de promotoras, influenciadores e operadores que descobriram a fórmula mágica: vender esperança matemática negativa com sorriso de comercial de iogurte. O Estado, que jurou de pés juntos que ia regulamentar para proteger o cidadão, fez o de sempre. Regulamentou para taxar, taxar para gastar, gastar para perpetuar a máquina que sustenta a própria classe que fiscaliza, mal e porcamente, o circo que ela mesma legalizou. Quem ganhou com a normalização das apostas? O fisco e os operadores. Quem perdeu? O sujeito da periferia que trocou a feira do mês pela aposta do dia.

A defesa padrão dos espertos é sempre a mesma melodia: ninguém é obrigado a apostar, é uma escolha livre, viva a liberdade individual. Concordo com o princípio, e justamente por concordar é que aponto a fraude argumentativa. Liberdade pressupõe responsabilidade integral, inclusive a de quebrar a cara sem socorro estatal. Mas aqui o jogo é outro. O Estado autoriza a banca, recebe sua fatia, blinda a operação com licenciamento e, quando o caldo entorna, manda a Polícia Federal arrombar a porta e a Interpol vigiar a suspeita em Roma, tudo bancado pelo contribuinte que jamais comprou um único bilhete. Privatizam o lucro da exploração e socializam o custo do circo investigativo. É a velha receita: quando ganha, é mérito; quando dá ruim, é problema coletivo.

Há uma lógica grosseira nessa engenharia que vale soletrar devagar para o estudante distraído. Se toda atividade lícita gera tributo, e se o Estado tributa o que regula, então o Estado tem interesse direto em ampliar o perímetro do que regula, ainda que o objeto regulado seja socialmente predatório. A conclusão é desconfortável mas inevitável: o regulador não é árbitro neutro, é sócio oculto da banca. Espantar-se com a proliferação de plataformas de aposta no Brasil é o mesmo que espantar-se com a multiplicação de tavernas em porto franco. A diferença é que aqui o capitão do porto também recebe gorjeta de cada copo servido, e depois encena indignação quando algum bêbado tropeça na escadaria.

O detalhe romano, porém, é o que dá o tempero. Piazza di Spagna não é endereço de quem prosperou poupando salário. É vitrine de quem soube extrair valor de um arranjo opaco, blindado por advogados, normalizado por colunistas pagos para chamar de empreendedorismo o que antigamente se chamava de exploração de jogatina. Enquanto a brasileira média trabalha dezoito horas para pagar a conta de luz dobrada pelos encargos setoriais, a musa do tigrinho tomava cappuccino com vista para a escadaria do século dezessete. Não é inveja apontar a obscenidade. É honestidade aritmética. O dinheiro saiu de algum lugar para chegar até lá, e esse lugar tem nome, sobrenome e contracheque modesto.

No fim, a pergunta que importa é sempre a mesma, repetida até o leitor se cansar de fingir que não entendeu. Quem paga e quem recebe? Paga o apostador iludido, paga o contribuinte que financia investigação, paga a sociedade que assiste à corrosão da noção elementar de que riqueza nasce do trabalho produtivo, não da extração de renda alheia mascarada de entretenimento digital. Recebe a operadora, recebe o influenciador, recebe o regulador, recebe o agente público que viaja para acompanhar a comitiva. A Interpol vigiando uma advogada em Roma é o monumento perfeito ao nosso tempo: o Estado paga caro para policiar o monstro que ele mesmo criou, alimentou e legalizou. E ainda quer aplauso pelo zelo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.