Treze bilhões de reais saíram da B3 em quatro semanas. Não foram embora porque tiveram saudade de casa, não foram embora porque o euro melhorou de humor, não foram embora porque a primavera chegou no hemisfério norte. Foram embora porque dinheiro tem olfato apurado para farsa fiscal, e o nariz do investidor estrangeiro começou a torcer diante do espetáculo tropical de gastança travestida de política social. O saldo do ano ainda está positivo, dizem os otimistas profissionais, aqueles mesmos que em janeiro juravam que o Brasil tinha entrado na rota do crescimento sustentável. Pico em janeiro, fuga em abril. O gráfico desenha sozinho a curva da desconfiança.

Quem paga essa conta? O brasileiro que acorda às cinco da manhã para pegar o segundo ônibus, esse paga. Porque quando o capital estrangeiro retira fichas da mesa, o câmbio sobe, o importado sobe, o combustível sobe, o pão francês sobe, e o salário, esse fica exatamente onde estava, congelado pela inflação que ninguém admite estar fabricando em série. Quem recebe? A burocracia que vive de emitir títulos públicos a juros gordos para tampar o rombo do orçamento que ela mesma cavou. É o esquema mais antigo do mundo travestido de modernidade financeira: o Estado gasta mais do que arrecada, emite dívida para cobrir o gasto, paga juros estratosféricos para convencer alguém a comprar essa dívida, e depois cobra imposto do trabalhador para pagar os juros. Roleta russa em que a única bala chama-se contracheque.

Há uma cena, lá pelos idos do declínio romano, em que os imperadores tardios desvalorizavam a moeda de prata misturando cobre, e os mercadores fenícios começavam silenciosamente a cobrar mais por menos. Ninguém anunciava o calote. O calote anunciava-se sozinho, na lentidão das caravanas, na elevação dos preços, na fuga dos artesãos para a Pérsia. Pois é exatamente isso que acontece quando treze bilhões saem da Bolsa sem alarde: é a caravana fenícia mudando de rota, é o capital reconhecendo que o cobre está vencendo a prata na liga monetária da política fiscal brasileira. E quando o último mercador parte, o que sobra é o palácio com as colunas pintadas de dourado, fingindo brilho.

O argumento oficial, claro, é que o fluxo do ano segue positivo. Cinquenta e quatro bilhões entraram, treze saíram, saldo azul, festa garantida. É a lógica do bêbado que comemora ter chegado em casa porque ainda não bateu o carro, ignorando que vinha em zigue zague pela contramão. O que importa não é o estoque, é a derivada. Não é onde o termômetro está, é para onde ele se move. E ele se move para baixo numa velocidade que assusta qualquer um que tenha lido um balanço de pagamentos antes de dormir. A premissa é simples: capital foge de incerteza fiscal. A incerteza fiscal aumentou. Logo, o capital foge. O silogismo não pede licença ao ministro da Fazenda.

E aqui mora o truque retórico que precisa ser desmontado a marteladas. Quando o dinheiro entra, o governo bate no peito e diz que é mérito da política econômica acertada. Quando o dinheiro sai, o governo aponta para a guerra do Leste Europeu, para o juro americano, para a lua nova, para a maré, para qualquer coisa que não seja o próprio espelho. É a velha função do bode expiatório, instituição milenar que nenhuma democracia conseguiu aposentar. O bode estrangeiro é especialmente prático porque não vota, não responde e, sobretudo, não devolve as ligações. Culpa-se Wall Street e segue-se aprovando emenda parlamentar com nome de padrinho.

O que esses treze bilhões dizem em voz baixa, na linguagem que só o capital fala fluentemente, é que o Brasil voltou a ser visto como aquele primo bonito que pega dinheiro emprestado prometendo abrir um restaurante e gasta tudo em festa de aniversário. O investidor sério não precisa de coletiva de imprensa para entender o recado. Ele lê a planilha, ele observa o spread, ele mede a inclinação da curva de juros e tira suas conclusões em silêncio. Enquanto isso, na praça pública, distribuem-se cestas básicas pagas com dinheiro que ainda não foi arrecadado, comemora-se um crescimento que mora na ponta da caneta do IBGE, e finge-se que o ajuste fiscal virá depois, num futuro indeterminado, quando convier. Só que o capital não tem paciência teológica. Quando ele decide que cansou, sai pela porta sem despedida, e quem fica com a conta é, sempre, o mesmo de sempre.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.