Noventa por cento. Esse é o tamanho do buraco que os fundos do Banco Master abriram no bolso do servidor fluminense aposentado, segundo os papéis que a Polícia Federal despejou na mesa do Supremo. Para quem não tem intimidade com a matemática do confisco, traduzo: de cada cem reais descontados do contracheque do professor, do soldado, do escrivão e do enfermeiro do estado do Rio, dez sobraram. Os outros noventa evaporaram em produtos financeiros que renderam menos do que aquela caderneta de poupança que o gerente do banco da esquina oferece ao cliente desavisado como prêmio de consolação. E renderam menos não por azar, não por má sorte conjuntural, não por causa de cisne negro nenhum, mas porque alguém, em algum gabinete, assinou o papel que mandou o dinheiro alheio para lá.

A trilha do dinheiro, quando se tem paciência de segui la, é sempre mais reveladora do que o comunicado oficial. O servidor é obrigado, sob pena de multa e prisão, a entregar parte do salário a um fundo previdenciário que ele não escolheu, administrado por gente que ele não elegeu, fiscalizado por órgão que ele não controla. Esse dinheiro, que deixou de ser dele no instante em que o contracheque foi processado, segue uma viagem cuja rota ninguém lhe explica. Vai parar num banco de varejo agressivo, conhecido no mercado por pagar generosamente em CDB para captar e por girar essa captação em operações de risco elevado. O gestor público que decidiu entregar a poupança da viúva e do órfão a esse tipo de operação certamente recebeu sorrisos, jantares, eventos, palestras, viagens. O banqueiro recebeu liquidez barata. O servidor recebeu o prejuízo. Cada elo dessa corrente engordou, menos o que estava no início e no fim dela.

Há uma certa pedagogia histórica nesse arranjo que merece ser dita em voz alta. Quando o senhor feudal cobrava o dízimo do camponês, ao menos tinha a honestidade de aparecer pessoalmente com o capanga ao lado. O fisco moderno aperfeiçoou o método: o dízimo virou contribuição, o capanga virou retenção na folha, e o senhor feudal virou uma sigla com sede em prédio envidraçado. A diferença é que o camponês medieval sabia para quem estava pagando e por quê. O servidor de hoje paga compulsoriamente para um intermediário que vai aplicar o dinheiro num banco amigo, com a desfaçatez adicional de chamar a operação de previdência social. Previdência é a virtude de quem pensa no amanhã. Isso aqui é o contrário. É a imprevidência institucionalizada de quem joga no cassino com a ficha dos outros.

Repare na bela simetria do silogismo. Toda a propaganda estatal sustenta que o sistema público é mais seguro do que o privado porque o gestor privado é ganancioso e o gestor público é técnico, isento, regulado. Pois bem. O gestor técnico, isento e regulado entregou a poupança alheia a um banco que qualquer analista minimamente alfabetizado em risco já apontava como problema havia anos. O rendimento ficou abaixo da poupança, ou seja, abaixo do piso que qualquer pé de chinelo conseguiria sentado no sofá. Conclusão inevitável: ou o gestor é incompetente, e nesse caso a tese da superioridade técnica do Estado desaba, ou o gestor é competente e sabia o que estava fazendo, e nesse caso a tese da isenção desaba junto. Escolha a porta. Atrás das duas está o mesmo monstro.

O mais saboroso da história, se é que se pode chamar de saboroso o desastre que vai recair sobre famílias inteiras, é o coro que se levantará agora pedindo mais regulação, mais auditoria, mais conselho fiscal, mais comissão parlamentar, mais ouvidoria, mais código de conduta, mais selo de governança. Como se o problema fosse a falta de carimbo. O problema, meu caro leitor, nunca foi a falta de carimbo. O problema é que existe um aparato inteiro autorizado por lei a colocar a mão no bolso de quem trabalha, sem pedir licença, para depois entregar esse dinheiro a um circuito fechado de bem nascidos que combina entre si quem fica com qual fatia. Acabe com o monopólio compulsório e o esquema acaba sozinho. Mantenha o monopólio compulsório e nenhum carimbo do mundo vai impedir que o próximo Master, com outro nome e outro logotipo, repita o golpe daqui a três anos. A pergunta que abre e fecha qualquer notícia desse tipo continua sendo a mesma, e ela é desconfortável de propósito: quem foi obrigado a pagar, e quem teve o privilégio de receber?

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.