A delegação iraniana saiu do Paquistão com as mãos vazias e a boca cheia de razões. O presidente do Parlamento de Teerã, com a solenidade de quem anuncia uma descoberta filosófica de primeira grandeza, comunicou ao mundo que os americanos simplesmente não conquistaram a confiança necessária para que um acordo fosse possível. Registre-se o momento. Um regime teocrático que prende jornalistas, executa dissidentes e financia milícias em quatro países simultaneamente acaba de dar uma aula sobre os pré-requisitos éticos da negociação diplomática. A ironia seria cômica se o pano de fundo não fosse um conflito com ogivas reais e cidades reais na mira.
Há uma lógica perversa, mas perfeitamente compreensível, nessa dança. Estados não fazem acordos porque confiam uns nos outros, fazem acordos porque calculam que o custo de não fazê-los supera o custo de fazê-los. Isso não é cinismo, é a descrição mais honesta do que a diplomacia sempre foi desde que os hititas e os egípcios firmaram o primeiro tratado de paz de que se tem registro. A confiança entre potências rivais é, no melhor dos casos, um subproduto; nunca a causa. Quando Teerã diz que Washington "não conquistou a confiança", o que está dizendo, em linguagem não sanitizada, é que os termos oferecidos não compensam o risco político interno de ceder. O resto é retórica para consumo doméstico, e funciona muito bem nessa função.
Do lado americano, a situação não é menos viciada. Qualquer administração que sente à mesa com o Irã carrega o peso de cinquenta anos de intervenções, de golpes patrocinados, de sanções que empobreceram uma população inteira sem jamais dobrar o regime que diziam mirar. A sanção econômica é a ferramenta favorita de quem quer parecer que está fazendo algo sem ter coragem de fazer a guerra ou inteligência de fazer a paz. Ela pune o padeiro de Teerã pelo comportamento do aiatolá de Teerã, com a eficiência moral de um bombardeio às cegas e a eficácia estratégica de uma carta com ameaças enviada para o endereço errado. Décadas de pressão econômica não derrubaram a República Islâmica; consolidaram sua narrativa interna de resistência, que é o único produto que o regime exporta sem déficit.
A escolha do Paquistão como palco de negociação é, por si só, um documento sobre o estado do mundo. Islamabad é um Estado que existe em permanente estado de colapso administrado, com serviço secreto que joga em quatro tabuleiros ao mesmo tempo e uma classe política que sobrevive exatamente por saber ser útil a todos os lados sem ser leal a nenhum. Negociar no Paquistão é como marcar um encontro sigiloso numa praça de mercado: todo mundo sabe, todo mundo finge que não sabe, e o resultado depende de quem suborna melhor o guardião da porta. Não é crítica, é a realidade geopolítica de um país que transforma sua instabilidade em moeda de troca há gerações.
O que Ghalibaf sinalizou ao dizer que o Irã pode participar de novas rodadas é a única coisa que um negociador racional sinaliza quando a rodada fracassa: que o canal ainda existe, que o preço ainda não foi acertado, que o jogo continua. Encerrar as negociações definitivamente não serve a ninguém, porque o conflito aberto é mais caro que o impasse crônico para ambos os lados. Então se declara que houve falta de confiança, que os americanos precisam "provar" algo, que novas condições precisam ser cumpridas, e marca-se outra reunião num país diferente, com delegações diferentes, para chegar, possivelmente, ao mesmo lugar. Essa é a gramática da diplomacia entre adversários que não podem se destruir mutuamente sem se destruírem junto, e nela a palavra "confiança" não tem conteúdo moral: tem função retórica.
Enquanto isso, os mercados de energia fazem o que sempre fazem durante tensões no Golfo: oscilam, especulam e redistribuem riqueza de quem produz para quem especula. O contribuinte americano financia a máquina militar e diplomática. O cidadão iraniano paga o sancionamento com o próprio salário corroído pela inflação. Os intermediários, os países que comercializam petróleo iraniano com etiquetas diferentes, os consultores de "risco geopolítico", os fabricantes de armamentos, esses não têm problema de confiança com ninguém. Eles têm contratos. E contratos, ao contrário da diplomacia, têm cláusulas claras, prazos definidos e penalidades em caso de descumprimento. Talvez seja por isso que guerras nunca faltam: alguém sempre assina o contrato antes que a paz seja negociada.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.