Mil seiscentas e trinta e nove pessoas. Esse é o número de indivíduos que o regime iraniano enforcou ao longo de 2025, um recorde desde 1989, ano em que o aiatolá Khomeini ainda estava vivo para assinar pessoalmente as listas de morte. Um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Sessenta e oito por cento. Quando uma empresa cresce 68% num ano, os analistas chamam de expansão agressiva. Quando um Estado mata 68% mais cidadãos, os diplomatas chamam de "preocupações crescentes com os direitos humanos" e agendam uma reunião em Genebra para discutir o assunto num hotel de cinco estrelas com coquetel de boas-vindas.

A correlação que ninguém quer enunciar em voz alta é esta: o ritmo das execuções acelerou exatamente quando a insatisfação popular com o regime cresceu. Não é coincidência, é causalidade, e ela obedece a uma lógica simples que qualquer pessoa honesta consegue enxergar. Todo poder repousa sobre dois pilares: o consentimento e a coerção. Quando o primeiro começa a rachar, o segundo é acionado com intensidade crescente. O Irã não inventou essa equação; apenas a pratica sem a hipocrisia que outros regimes cultivam com tanto esmero. A forca iraniana é, nesse sentido, quase honesta. Ela diz abertamente o que o Estado é: o monopolista da violência que se autolegitimou pela propaganda religiosa e que, quando a propaganda falha, revela o que sempre esteve por baixo.

Repare no mecanismo. Em 2022, as mulheres iranianas foram às ruas sem o véu. O regime respondeu com prisões, torturas e execuções. Em 2023, os protestos continuaram. Em 2024, mais execuções. Em 2025, recorde histórico. A escada é perfeitamente legível: cada degrau de resistência popular é respondido com um degrau a mais de terror estatal. Não há mistério aqui, não há complexidade cultural que precise de quarenta volumes de ciência política para ser explicada. É simples: o povo quer sair da jaula, a jaula aperta. Isso aconteceu em Moscou nos anos trinta, aconteceu em Pequim em oitenta e nove, aconteceu em Havana por sessenta anos seguidos, e acontece em Teerã agora. O figurino muda, o roteiro é o mesmo. O Estado que não consegue seduzir, mata. Sempre foi assim, sempre será, enquanto existir Estado com poder ilimitado sobre a vida dos seus súditos.

Há um detalhe que os relatórios de direitos humanos mencionam de passagem, mas que merece ser colocado no centro da análise: boa parte dos executados foram condenados por crimes de drogas. O regime usa a guerra às drogas, essa velha ferramenta de controle social que nenhum governo jamais dispensou, para empacotar politicamente os dissidentes mais difíceis de eliminar por outros meios. Um sujeito que distribui panfletos contra o Supremo Líder pode virar réu num processo de tráfico com uma facilidade desconcertante, especialmente quando os juízes são nomeados pelo próprio regime que ele ousou criticar. A corda mata o traficante no papel; na prática, elimina o inimigo político com a aparência de legalidade. O processo judicial como fantasia encenada para consumo externo, enquanto a forca funciona como argumento definitivo para consumo interno. É eficiente. É ignóbil. E é, em essência, a mesma lógica que qualquer sistema de poder usa quando quer se livrar de quem incomoda, variando apenas a sofisticação da encenação.

A comunidade internacional, por sua vez, fará o que sempre faz: emitirá notas de "profunda preocupação", convocará embaixadores para conversas "francas e diretas", e aprovará resoluções que ninguém cumprirá em sessões plenárias que ninguém assiste. O Irã tem petróleo, tem posição geopolítica estratégica, tem capacidade de desestabilizar o Golfo Pérsico num fim de semana, e tem parceiros comerciais que preferem a discreta cumplicidade ao embargo. Quem paga essa conta? Os 1.639 que já não podem mais pagar nada. Quem recebe? Os regimes, os fornecedores de equipamentos de segurança, os intermediários do comércio de petróleo que passa por dezessete mãos antes de chegar ao refinador europeu com a consciência lavada. Pergunta a pergunta que ninguém quer responder: se o Irã não tivesse nada a oferecer economicamente, quantas notas de "profunda preocupação" seriam convertidas em ação concreta? A resposta está nos precedentes. Em países sem petróleo e sem localização estratégica, a comunidade internacional age com muito mais vigor moral. A coincidência é reveladora.

Mil seiscentas e trinta e nove pessoas. Nomes, rostos, histórias, filhos, pais, opiniões que alguém em Teerã decidiu que não mereciam existir. O Estado iraniano não é uma anomalia monstruosa num mundo de governos benevolentes; é um espelho sem filtro do que o poder faz quando não encontra limites. A diferença entre Teerã e as capitais que a condenam não é de natureza, é de temperatura. Aqui a água esquenta devagar, lá ela já ferveu. Por enquanto.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.