O chefe da Comissão de Segurança do Parlamento iraniano anunciou, sem rodeios e sem pedir licença a ninguém, que o Irã vai começar a cobrar pedágio dos navios que navegam pelo Estreito de Ormuz. Não é uma ameaça vaga, não é retórica de campanha eleitoral, não é o tipo de declaração que os diplomatas arquivam sob a categoria "barulho político descartável". É uma política. Uma política de extorsão institucionalizada, embalada em linguagem de soberania nacional e servida quente para um mundo que perdeu a capacidade de chamar as coisas pelo nome.
Ormuz não é um lago particular. É uma passagem internacional por onde transitam, a cada dia, tanques e navios carregados com o petróleo que aquece casas, move fábricas e alimenta economias inteiras, da Europa à Ásia, passando pelos países que se recusam a ter opinião sobre o assunto. Cerca de vinte por cento do petróleo que circula pelo mundo passa por ali. Quando alguém anuncia que vai instalar uma espécie de cancela nesse corredor e cobrar taxa de passagem, não está exercendo soberania, está praticando o mais antigo negócio do mundo: o monopólio da força transformado em fonte de renda. Os barões medievais faziam exatamente isso nos rios da Europa, com correntes de ferro atravessadas entre as margens e homens armados nas torres. A elegância da roupa mudou; a lógica permanece impecável.
O que fascina, e perturba, é a clareza com que o regime iraniano enuncia o raciocínio: "é necessário controlar o estreito com base nos interesses do país". Repita a frase devagar. Nela está contida toda a filosofia política que o Ocidente fingiu superar depois de duas guerras mundiais e três gerações de tratados internacionais. O interesse nacional como critério supremo e autossuficiente, sem referência a nenhuma norma superior, a nenhum direito alheio, a nenhum princípio que não seja a própria vontade de quem detém o canhão. Não existe argumento mais honesto do que esse, e é exatamente por ser honesto que ele apavora tanto quem passa a vida ensinando que a ordem internacional é regida por valores universais. Quando o rei sem roupa aparece na praça, os alfaiates ficam em silêncio.
Siga o dinheiro, porque o dinheiro sempre explica melhor do que o discurso. O Irã enfrenta sanções econômicas que sufocam sua capacidade de exportar petróleo e de acessar o sistema financeiro global. A economia iraniana está prensada entre a incompetência estrutural de um regime teocrático e o cerco externo que os Estados Unidos mantêm há décadas com variados graus de intensidade. A solução encontrada é de uma criatividade brutal: se não posso vender o que tenho debaixo do meu solo, vou cobrar pedágio pelo que passa debaixo dos navios dos outros. É o equivalente geopolítico do vizinho que, impedido de trabalhar, resolve cobrar pelo acesso à calçada em frente à sua casa. A diferença é que esse vizinho tem mísseis antinaviação e uma marinha de guerra, e a calçada em questão conecta o Oriente Médio ao resto do planeta.
A questão que ninguém quer fazer em voz alta é a seguinte: e daí? Quem vai impedir? A ONU, que é o lugar onde resoluções vão morrer de velhice? Os Estados Unidos, que estão em plena crise de identidade sobre o que querem ser no mundo? A União Europeia, que precisa de seis meses de reuniões para decidir a cor da pasta de dentes no comunicado conjunto? O silêncio que se segue a essa pergunta não é diplomático; é o tipo de silêncio que precede as grandes capitulações. Toda vez que uma fronteira absurda foi aceita sem reação, toda vez que uma extorsão foi tratada como negociação, toda vez que a força bruta foi coberta com o eufemismo de "afirmação de soberania", o custo foi pago mais tarde, com juros, por pessoas que não estavam na sala quando a decisão foi tomada. A história não tem outro padrão.
No fim, o que o Irã fez foi simples e pedagógico: revelou que o direito internacional, sem força e sem vontade política de aplicá-lo, é literatura de ficção científica. Não é uma conclusão nova, mas é sempre útil tê-la demonstrada empiricamente, para que não reste dúvida. O estreito de Ormuz pertence a quem tiver canhões suficientes para guardar as margens, e quem não concorda que forme uma fila ordeira para pagar o pedágio. Esta é a lição. A aula não custa nada. A taxa de passagem, por outro lado, ainda está sendo calculada.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.