A notícia chega embalada como ameaça inédita, mas é tão velha quanto a indústria que a sustenta. A marinha do Irã garante que dará resposta pesada caso embarcações iranianas sejam atacadas, e os porta vozes americanos respondem com a solenidade de quem nunca viu um mísssil na vida. Pergunta simples, daquelas que estragam a festa: quem se beneficia desta troca de rosnados a cada seis meses? Não é o pescador de Bandar Abbas, nem o mecânico de Ohio. Os beneficiários têm endereço fixo, e ele fica entre fabricantes de armas, contratados de defesa e uma classe política que precisa de inimigo perpétuo para justificar o orçamento perpétuo.
O arranjo é elegante na sua brutalidade. Teerã precisa do grande Satã para manter os aiatolás de pé, porque sem inimigo externo o povo começa a perguntar sobre o preço do pão e a corrupção dos guardiães da revolução. Washington precisa do regime fanático para manter as bases do Golfo, os contratos bilionários com as monarquias do petróleo e o fluxo constante de verbas para o complexo industrial militar. É uma sociedade tácita entre adversários que se odeiam em público e dependem um do outro em privado, como dois lutadores de luta livre que sabem o desfecho antes do primeiro soco.
Olhe para a história recente e o padrão fica obsceno. Cada vez que o orçamento de defesa americano enfrenta resistência no Congresso, surge uma crise no Estreito de Ormuz. Cada vez que os aiatolás veem protestos nas ruas iranianas, aparece uma frota americana ameaçando o santuário islâmico. A coincidência é tão grosseira que ofende a inteligência de quem ainda lê jornal. Os romanos chamavam isso de panem et circenses, e o circo moderno custa caro: sai do bolso do trabalhador via imposto, sai do bolso do consumidor via inflação, sai do bolso do iraniano comum via sanção que enriquece o intermediário e empobrece a feira.
A lógica é cristalina e por isso ninguém quer enxergar. Se todo Estado é monopolista da violência dentro de suas fronteiras, dois Estados rivais formam um cartel da violência projetada para fora. Cartéis precisam de demanda, e demanda por guerra se fabrica com declaração teatral, manchete apavorante e analista de TV repetindo que desta vez é sério. Nunca é. Quando for, ninguém terá avisado, porque guerra de verdade começa com silêncio, não com comunicado da marinha. O barulho é a indústria do medo trabalhando hora extra, e o silêncio seria o momento de realmente se preocupar.
Enquanto isso, o iraniano comum paga inflação galopante para sustentar a Guarda Revolucionária e seus mísseis simbólicos, o americano comum paga imposto para sustentar onze porta aviões que existem para projetar poder em mares que não lhe pertencem, e o brasileiro comum paga combustível mais caro porque cada rosnado no Golfo Pérsico é desculpa para reajuste na bomba. Três povos pagando a conta de uma briga que beneficia três oligarquias diferentes, unidas pelo único interesse comum que importa: que a tensão jamais se resolva. Resolução é falência para quem vive da ameaça.
O leitor honesto, ao terminar a notícia original, deveria fazer a pergunta que nenhum editorial faz: se este conflito acabasse amanhã, quem perderia mais dinheiro? A resposta é a notícia. Os mísseis apontados são reais, mas o teatro em torno deles é a verdadeira arma de destruição em massa, porque destrói a capacidade do cidadão de distinguir ameaça genuína de espetáculo orçamentário. E povo desarmado de discernimento é povo pronto para financiar qualquer guerra que lhe vendam embalada em bandeira.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.