A agência estatal iraniana solta a notícia com o ar grave de quem anuncia armistício, e o mundo finge acreditar que dois governos sentaram à mesa por amor à navegação livre. O memorando, dizem, regulará o fluxo de navios autorizados a cruzar o Estreito de Ormuz, aquele funil estreito por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. Repare na palavra mágica: autorizados. Não é livre comércio, não é mar aberto, é alvará. E onde há alvará, há balcão. E onde há balcão, há propina disfarçada de diplomacia.
O Estreito de Ormuz nunca foi um problema de geografia, é um problema de monopólio. Os aiatolás descobriram décadas atrás o que qualquer pedagiarista medieval já sabia: se você controla a ponte, cobra de quem atravessa. A diferença é que o pedagiarista medieval ao menos tinha a honestidade de usar uma corrente atravessada no rio; o regime iraniano usa lanchas rápidas, minas magnéticas e a retórica do martírio islâmico. O resultado é o mesmo: o consumidor final, aquele coitado que abastece o carro em Curitiba ou em Lisboa, paga o sobrepreço embutido no prêmio de risco que os traders calculam a cada manhã olhando para o mapa do Golfo Pérsico.
Agora pergunte a coisa que ninguém quer perguntar: quem ganha com um acordo? Não é o consumidor, jamais foi. O acordo permite que o Irã exporte mais barris sem o teatro das sanções, o que enche os cofres dos Guardiões da Revolução e financia mais uma rodada de proxies regionais. Permite que a Casa Branca apresente uma vitória diplomática de cartolina às vésperas de algum ciclo eleitoral. Permite que os gigantes do refino americanos travem contratos de longo prazo com desconto. E permite que os intermediários, sempre eles, os sempre presentes operadores em Genebra e Dubai, embolsem comissões sobre cargas que antes navegavam na clandestinidade. Todo mundo lucra, menos quem trabalha.
O truque retórico é sempre o mesmo: vender controle como segurança, vender restrição como estabilidade, vender confisco como ordem. Disseram a mesma coisa quando inventaram a OPEP nos anos sessenta, disseram a mesma coisa quando criaram a regulação ambiental que protege os incumbentes contra novos concorrentes, dizem agora quando dois governos hostis combinam quem pode e quem não pode navegar em águas que, na lógica do direito natural, não pertencem a ninguém e por isso pertencem a todos. A liberdade de navegação foi a base da prosperidade ocidental durante quatro séculos, e em três tardes de reunião burocrática se converte em concessão renovável.
Há ainda o detalhe cômico, daqueles que merecem uma gargalhada antes do desespero: os mesmos governos que se acusam mutuamente de terrorismo de Estado durante o dia se sentam à noite para dividir os fluxos comerciais. Não há inimigos eternos no balcão da geopolítica, há apenas planilhas com colunas diferentes. O cidadão americano que financia o porta aviões e o cidadão iraniano que financia o regime através de impostos extorquidos descobrirão, se algum dia se derem ao trabalho de ler as letras miúdas, que estavam ambos pagando pela mesma encenação. Um pagou pelo músculo, o outro pagou pela ameaça, e os dois custearam o teatro.
Toda vez que ouvir a palavra acordo entre dois governos, traduza mentalmente por divisão de espólio. Toda vez que ouvir estabilidade, troque por preço fixado em câmara secreta. Toda vez que ouvir segurança marítima, leia pedágio com nome técnico. O Estreito de Ormuz seguirá aberto, sim, mas para os navios certos, das bandeiras certas, com os intermediários certos, pagando as taxas certas a quem importa. O resto do mundo abastece e cala.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.