Neste domingo, 10, Teerã encaminhou aos Estados Unidos uma resposta formal à proposta americana de cessar-fogo, e o canal escolhido para entregar o envelope foi nada menos que o governo do Paquistão, agora promovido a carteiro oficial do conflito. A cena tem ares de filme barato, dois inimigos que se odeiam publicamente trocando bilhetinhos por intermédio de um terceiro país nuclearmente armado, mas a imprensa internacional engole tudo com a mesma reverência com que beata engole hóstia. Ninguém pergunta o óbvio: por que dois governos que se ameaçam de aniquilação mútua precisam de um mensageiro? Resposta simples, porque a encenação do antagonismo rende mais do que a paz silenciosa.
Vamos ao que interessa, sempre ao que interessa. Toda guerra tem uma planilha, e a planilha do Oriente Médio é generosa com nomes muito específicos. Fabricantes de mísseis cujas ações sobem cada vez que um drone cruza o estreito de Ormuz, contratadas privadas de logística militar que faturam bilhões para abastecer bases que ninguém votou para construir, lobbies setoriais em Washington que escrevem o roteiro das audiências no Congresso antes mesmo dos senadores chegarem. Enquanto o cidadão médio americano paga a conta com inflação e o cidadão médio iraniano paga com sanções que destroem a poupança dele, há um terceiro grupo, pequeno e bem vestido, que paga apenas o garçom no jantar de comemoração trimestral.
O detalhe paquistanês merece atenção redobrada. Islamabad não é a Suíça, não tem tradição de neutralidade, tem arsenal nuclear, exército politizado até a medula e uma agência de inteligência que historicamente fez serviços terceirizados para meio mundo. Quando esse país é alçado à condição de mediador principal entre Washington e Teerã, não estamos diante de um gesto de boa vontade, estamos diante de um arranjo onde alguém está cobrando comissão. A diplomacia, quando feita pelos Estados, jamais é gratuita. Sempre há contrapartida, sempre há favor futuro, sempre há um envelope que não aparece no comunicado oficial.
Observe a estrutura lógica do teatro. Premissa primeira, governos existem para proteger seus cidadãos. Premissa segunda, esta guerra empobrece, mata e desloca cidadãos de todos os lados envolvidos. Conclusão inevitável, esta guerra não existe para proteger ninguém, existe para servir a interesses que não coincidem com os do contribuinte comum. E quando um silogismo desse tamanho é ignorado pela cobertura jornalística inteira, a hipótese mais econômica é que a cobertura jornalística também está na folha de pagamento. Quem paga o anúncio define a manchete, e quem define a manchete define o que o eleitor pensa antes de votar pela próxima rodada de financiamento militar.
Há ainda a piada cósmica de chamar de proposta de paz aquilo que é, na verdade, uma renegociação dos termos da extorsão. Encerrar a guerra do jeito que está sendo desenhado significa congelar territórios, validar conquistas, premiar quem atirou primeiro e condenar quem apenas existia no lugar errado. É a velha lógica do salteador que, depois de roubar o passageiro, oferece um acordo generoso de devolver a carteira sem os documentos. O passageiro, agradecido por ainda estar vivo, assina embaixo e chama isso de diplomacia. A história já viu esse roteiro mil vezes, do Congresso de Viena aos acordos de Versalhes, e o final é sempre o mesmo, a próxima guerra já vem incluída no preço.
Então fica a pergunta com que se começou e com que se termina, porque é a única que vale. Quem paga? O trabalhador americano que vê o dólar derreter, o iraniano comum que não consegue comprar remédio, o jovem de Gaza que não chegou aos vinte, o europeu que recebe a fatura energética triplicada. Quem recebe? Os de sempre, os mesmos nomes que se repetem em cada conflito desde que existe imprensa para encobri-los. Enquanto o Paquistão entrega cartinhas e a Casa Branca finge negociar, a verdadeira mensagem está sendo trocada em outro lugar, num idioma que se chama transferência bancária.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.