Os foguetes iranianos cruzaram o Golfo Pérsico e caíram em Bahrein e Kuwait, dois reinos do petróleo que tiveram a infelicidade geográfica de abrigar bases americanas, e os comunicados oficiais dos dois governos vieram com a previsível indignação de quem condena a agressão descarada e adverte contra a escalada perigosa. A coreografia é antiga, ensaiada, quase litúrgica. Os americanos bombardeiam o Irã, o Irã responde mirando os vizinhos que hospedam os americanos, os vizinhos protestam contra o Irã sem nunca questionar por que diabos têm bases estrangeiras enfiadas no próprio quintal, e o cidadão comum, que jamais foi consultado sobre nada disso, descobre pelo telejornal que entrou em mais uma guerra que não escolheu.

Vamos ao essencial, que é o que ninguém quer discutir. Quem ganha com isso? Pergunta simples, resposta incômoda. As ações das fabricantes de armamento sobem assim que o primeiro míssil decola, o barril de petróleo dispara, os bancos que financiam a reconstrução já estão alinhando comitês, e os think tanks de Washington recebem novos cheques para produzir relatórios explicando por que era inevitável e por que precisamos de mais bombas. Cada explosão no Golfo é um dividendo trimestral em algum lugar, e o sangue derramado vira linha de receita em planilha de acionista. Não há novidade nisso, há apenas a indecência da repetição.

O regime de Teerã, convém lembrar, é uma teocracia opressora que prende mulheres por causa de um fio de cabelo, e ninguém em sã consciência defenderia os aiatolás. Acontece que essa constatação óbvia tem sido usada há décadas como passe livre para qualquer aventura militar imaginável, como se a maldade de um governo distante autorizasse automaticamente a destruição do território onde ele governa, com os civis dentro, e a transferência compulsória de bilhões do contribuinte americano para os bolsos do complexo industrial bélico. A premissa é falsa, a conclusão é criminosa, e o silogismo só convence quem já estava convencido antes do primeiro argumento.

Bahrein e Kuwait são satrapias modernas, principados do petróleo onde reis vitalícios negociaram a própria soberania em troca de proteção militar americana, e agora descobrem, com fingida surpresa, que abrigar a base do inimigo do inimigo significa, eventualmente, levar míssil na cara. Não é injustiça cósmica, é aritmética elementar. Quem aluga o quintal para a artilharia alheia não pode reclamar quando o telhado vira alvo. A indignação dos comunicados oficiais tem o mesmo valor moral do espanto do agiota quando o devedor não paga: encenação para os ingênuos.

E a Europa, e o Brasil, e o mundo que assiste? Pagam a conta na bomba de gasolina, no preço do trigo, no juro que sobe porque a inflação importada virou desculpa para o banco central enxugar liquidez. A guerra de outros é sempre o imposto invisível de todos. Lá no século passado, quando os impérios brigavam pelo controle das rotas, o súdito do interior pagava com fome a vaidade dos generais que ele jamais veria, e a coisa não mudou tanto quanto o discurso do progresso gostaria de nos vender. Mudaram os figurinos, os mapas, as bandeiras. A engenharia do saque continua intacta.

O que se chama de política externa é, no fundo, o nome elegante para a expropriação organizada em escala planetária, e a moralidade das intervenções costuma coincidir, com uma precisão que envergonharia a coincidência, com os interesses comerciais de quem assina o contrato dos mísseis. Resta ao cidadão lúcido, que ainda existe em número embaraçoso para os senhores da guerra, a tarefa rotineira de não acreditar em uma vírgula sequer dos comunicados oficiais, de qualquer lado, e de repetir baixinho a única pergunta que sobrevive a todos os impérios: quem paga, e quem recebe?

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.