O fato nu e cru é o seguinte: o presidente dos Estados Unidos publicou uma imagem em que se coloca numa cena bíblica, como se fosse personagem das Escrituras, e o regime iraniano, com a velocidade de quem já tinha o estúdio de propaganda pronto e pago, respondeu com um vídeo em que Jesus Cristo em pessoa lança Donald Trump ao inferno. Dois governos, dois aparatos de comunicação milionários, duas máquinas de propaganda sustentadas por impostos, disputando quem instrumentaliza melhor a figura de um carpinteiro galileu que, diga-se de passagem, não cobrava tributos de ninguém.

A coisa é de uma simetria quase cômica. De um lado, um chefe de Estado que governa o país mais endividado da história da civilização, com um déficit federal que já ultrapassou qualquer ficção contábil, e que encontra tempo entre uma tarifa comercial e outra para se fantasiar de figura sagrada nas redes sociais. Do outro, uma teocracia que enforca dissidentes em praça pública, mantém seu povo sob um aparato de vigilância medieval travestido de república islâmica, e que gasta recursos do erário para produzir vídeos de contra-propaganda religiosa com qualidade de estúdio. Os dois lados chamam o outro de blasfemo. Os dois lados gastam dinheiro alheio para bancar o espetáculo. E nenhum dos dois consultou o pagador.

Perceba a mecânica: quando um governante se coloca em cena sagrada, ele não está fazendo teologia, está fazendo política. Está sequestrando o capital simbólico da religião para blindar decisões temporais que nada têm de divinas. Quando Trump se pinta de figura bíblica, a mensagem não é para Deus, é para o eleitor evangélico cujo voto ele precisa em 2028 ou para quem mais puder servir de base eleitoral. Quando o Irã responde com Jesus condenando Trump, não está defendendo Cristo, está usando-o como munição geopolítica contra Washington. Nos dois casos, a religião é o instrumento, nunca o fim. E o padrão se repete desde que o primeiro imperador romano percebeu que era mais barato colocar uma cruz no estandarte do que pagar mais legiões.

O que deveria escandalizar não é a suposta blasfêmia, que cada fiel julgue isso segundo sua consciência. O que deveria escandalizar é a naturalidade com que aceitamos que aparatos estatais, financiados coercitivamente, se dediquem a produzir conteúdo religioso de propaganda. O Departamento de Estado americano tem orçamento de comunicação estratégica. O Irã mantém redes inteiras de mídia estatal, da Press TV a uma constelação de canais em línguas diversas, todas sustentadas pelo petróleo que, em tese, deveria beneficiar o cidadão iraniano que faz fila para comprar pão. Os dois lados transformaram o sagrado em commodity política e mandam a fatura para o contribuinte.

A lógica é antiga e funciona porque ninguém a desmonta: o governante associa sua imagem ao transcendente para que questioná-lo pareça sacrilégio. Se Trump é bíblico, criticá-lo é atacar a fé. Se o Irã fala em nome de Jesus contra Trump, questionar o regime é trair a causa divina. É o truque mais velho do poder, vestir o confisco de dízimo, a guerra de cruzada, a propaganda de revelação. E enquanto americanos e iranianos assistem a essa novela teológica nas telas dos celulares, ninguém pergunta quanto custou o roteiro, quem aprovou o orçamento e de qual bolso saiu o dinheiro. Porque no fim, como sempre, a pergunta que importa não é quem vai para o céu ou para o inferno. É quem paga e quem recebe.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.