Sexta-feira, dia 17, o recado já estava dado: se os americanos não levantassem o bloqueio naval, o Irã fecharia o Estreito de Ormuz. Os americanos não levantaram, os iranianos cumpriram a promessa, e agora aquela faixa estreita de água por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo do planeta virou um corredor militarizado. Tudo muito solene, muito geopolítico, muito importante para os senhores de terno que aparecem nas entrevistas. Só que no fim da linha, quando a poeira diplomática assentar, a conta não vai chegar no Pentágono nem no palácio em Teerã. Vai chegar no posto de gasolina da esquina, no supermercado da sua rua, no boleto da conta de luz. Essa é a mágica mais antiga do teatro internacional: os atores cobram ingresso da plateia.
Preste atenção no roteiro, porque ele se repete com a mesma monotonia há décadas. Primeiro, uma potência decide que precisa impor sanções, bloqueios, embargos, qualquer eufemismo que evite a palavra guerra. A justificativa é sempre nobre, a segurança global, a ordem internacional, os valores civilizacionais, o combate ao tirano da vez. Segundo ato, o país sancionado revida do jeito que pode, geralmente apertando alguma torneira estratégica. Terceiro ato, o preço das commodities dispara e o cidadão comum, que não foi consultado sobre nada, descobre que está financiando uma disputa entre dois governos que ele nunca elegeu. Chamam isso de política externa. Eu chamo de extorsão com dois cúmplices em lados opostos do mapa.
Vale lembrar que aquele Estreito já foi fechado, ameaçado, minado e bloqueado em episódios anteriores, cada um deles deixando uma cicatriz no bolso de quem mora a dez mil quilômetros dali. Nos anos oitenta, durante a guerra entre Irã e Iraque, a chamada Guerra dos Petroleiros encareceu o barril e despejou o custo no colo de economias inteiras que nada tinham a ver com a briga. Décadas depois, o figurino mudou, os uniformes mudaram, os discursos ganharam vocabulário mais sofisticado, mas o mecanismo é rigorosamente o mesmo. Governos produzem a crise, governos vendem a solução para a crise, e o pagador da festa é sempre aquele sujeito que só queria encher o tanque para ir trabalhar.
Aqui aparece o silogismo que ninguém quer enunciar em voz alta. Toda ação militar encarece insumos estratégicos. Todo encarecimento de insumo estratégico se propaga pela cadeia produtiva inteira. Logo, toda ação militar é um imposto disfarçado cobrado do consumidor final, sem voto, sem debate, sem recibo. E repare na beleza perversa do arranjo: o imposto é invisível, chega embutido no preço do frete, do pão, do leite, da passagem. Você não assina nada, não autoriza nada, apenas paga. É a forma mais elegante de confisco já inventada, porque dispensa até o carteiro entregando a guia de recolhimento.
Siga a trilha do dinheiro e a fotografia fica nítida. Quem ganha com Ormuz fechado? O complexo militar americano, que justifica orçamentos siderais toda vez que um estreito rangente. As petrolíferas estatais de meio mundo, que vendem o mesmo barril por um preço mais gordo. Os traders de commodities, que fazem fortunas em horas quando o mapa pega fogo. Os regimes de ambos os lados, que transformam escassez em instrumento de propaganda doméstica, apontando o inimigo externo sempre que a inflação interna aperta. E quem perde? O trabalhador brasileiro, o aposentado português, o caminhoneiro argentino, a dona de casa indiana, a costureira vietnamita. Gente que nunca ouviu falar em Ormuz, mas que vai sentir Ormuz no contracheque dentro de trinta dias.
O detalhe mais constrangedor é que os dois lados dessa disputa, o bloqueador e o bloqueado, vão aparecer nos próximos dias dizendo exatamente a mesma coisa: que agem em defesa do povo, da soberania, da paz, da estabilidade regional. É o mesmo truque do camelô que vende remédio milagroso em praça pública, só que com fuzis e porta aviões como cenário. E ninguém, absolutamente ninguém, vai subir num palanque para dizer a única verdade simples desse enredo todo: quando dois governos brigam, quem apanha é o bolso alheio. O resto é fantasia para consumo de telejornal, e se o mundo inteiro concorda que a briga é inevitável, talvez seja exatamente aí que você deva desconfiar.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.