A irmã do ditador norte-coreano veio a público debochar da última reunião da AIEA que ousou pronunciar a palavra desnuclearização, e a cena, se fosse ficção, seria descartada por inverossímil. Uma aristocrata hereditária de um regime que trata cidadãos como gado, escoltada por generais que herdaram patentes como quem herda gravatas, dá lição de moral a burocratas internacionais que gastam bilhões por ano para produzir relatórios que ninguém cumpre. E o Ocidente responde com a mesma cara de paisagem de sempre, aquela que já se tornou marca registrada da diplomacia contemporânea.
Vale perguntar quem financia esse circo. A AIEA é sustentada por contribuições compulsórias de Estados-membros, ou seja, pelo bolso de trabalhadores europeus, americanos, brasileiros e japoneses que nunca assinaram embaixo dessa aventura. Enquanto isso, os Kim seguem construindo ogivas com dinheiro extraído de uma população que come casca de árvore em inverno rigoroso. O arranjo é perverso, e a perversidade tem a assinatura clássica do intervencionismo internacional: paga quem produz, recebe quem manda no cassetete, e no meio existe uma casta permanente de diplomatas com salário isento de imposto que voa em classe executiva para explicar por que tudo continua igual.
A desnuclearização da Coreia do Norte é o exemplo mais didático que existe do que acontece quando burocratas acreditam que podem redesenhar a realidade de cima para baixo. Décadas de negociações, acordos assinados com pompa, promessas de ajuda humanitária, alívio de sanções, apertos de mão registrados em foto oficial, e o resultado empírico é este: mais mísseis, mais testes, mais arrogância dinástica. Cada rodada de conversa produziu um novo pretexto para o regime ganhar tempo, dinheiro e legitimidade. É a espiral inevitável de qualquer tentativa de negociar com quem não tem incentivo algum para cumprir a palavra empenhada.
Enquanto os holofotes ficam na provocação da moça, ninguém pergunta o que não se vê. Não se vê o quanto a China lucra mantendo Pyongyang como cão de guarda contra a influência americana no Pacífico. Não se vê a rede de bancos, transportadoras e intermediários que furam sanções em troca de comissões gordas. Não se vê o mercado paralelo de tecnologia de mísseis que passa pelo Irã, pela Síria e por meia dúzia de repúblicas ex-soviéticas onde a fronteira entre governo e crime organizado é uma linha borrada com giz molhado. E, sobretudo, não se vê que cada declaração dessa família serve para justificar novos orçamentos de defesa, novos pacotes de contenção, novos programas de vigilância que enriquecem o mesmo complexo industrial de sempre.
Há um padrão histórico aqui que os defensores da diplomacia multilateral fingem não enxergar. Regimes que concentram poder absoluto em uma família jamais abrem mão da carta que garante sua sobrevivência, e a bomba atômica é essa carta. Nenhum ditador que possuía armas nucleares foi derrubado por invasão externa nas últimas oito décadas; todos os que abriram mão delas, por outro lado, terminaram enforcados, arrastados ou fuzilados em becos. Os Kim aprenderam essa lição olhando para a Líbia, para o Iraque e para a Ucrânia pós-Budapeste. Nenhum discurso solene em Viena vai convencê-los a repetir esses erros, e todo diplomata sério sabe disso, ainda que precise fingir o contrário para justificar o próprio salário.
O que resta ao cidadão comum diante desse espetáculo é a lucidez de reconhecer que existem problemas sem solução dentro do arranjo institucional atual, e que o custo de fingir o contrário é maior do que o custo de admitir a verdade. A dinastia de Pyongyang não será desarmada por reunião, por resolução, por sanção parcial nem por bondade da irmã do líder supremo. Ela será substituída quando seu povo tiver coragem, oportunidade e informação para tanto, e nada disso depende de mais uma conferência internacional com coffee break patrocinado. O resto é literatura para consumo dos ingênuos que ainda acreditam que o palco de Viena tem alguma relação com o palco real onde as armas são construídas.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.