A cena é daquelas que dispensam legenda. Um soldado do exército israelense, uniformizado, armado, pago com dinheiro de contribuinte, resolve que a estátua de Cristo no sul do Líbano era um inconveniente estético e tratou de depredá la. As próprias forças de defesa confirmaram a autenticidade do vídeo, usaram a palavra "grave" e prometeram providências, aquela liturgia burocrática que todo Estado encena quando é flagrado fazendo o que faz todo dia sem câmera por perto. O rei está nu, e desta vez quem aponta é um celular qualquer, não um profeta.
Convém lembrar o óbvio que a propaganda oficial finge esquecer. Aquele soldado não estava em Tel Aviv defendendo a casa da avó dele. Estava em território libanês, ou seja, em propriedade alheia, custeado por impostos confiscados de cidadãos que nunca foram consultados sobre se queriam financiar aventura militar em país vizinho. A estátua, por sua vez, pertencia a uma comunidade cristã que vive ali há mais séculos do que qualquer fronteira desenhada por diplomata ocidental em mapa colorido. Dois confiscos num gesto só, o do bolso de quem paga e o do patrimônio de quem reza.
A estrutura lógica é brutal e dispensa sutileza. Se o Estado se arroga o monopólio legítimo da violência, e se esse monopólio pisa em templo, imagem e símbolo de terceiros, então o monopólio não é legítimo, é apenas monopólio. O silogismo não tem saída. Toda vez que um governo precisa chamar de "incidente isolado" aquilo que seus agentes fazem fardados e armados, está admitindo, pela porta dos fundos, que a farda e a arma viajaram até lá por conta dele, não do soldado. A responsabilidade sobe a cadeia de comando inteira, queiram os generais ou não.
Há algo de cômico e de sinistro no teatro das retratações oficiais. Reis europeus do medievo, quando suas tropas saqueavam igrejas em campanha, mandavam construir capelas de penitência em casa, como se a geografia da culpa fosse transferível. Os comunicados modernos funcionam igual, só trocaram a pedra pela coletiva de imprensa. A mensagem, porém, é a mesma desde sempre: o soldado errou, o comando lamenta, o contribuinte paga a multa moral, e o orçamento militar do ano seguinte aumenta. Ninguém devolve a estátua, ninguém devolve o imposto, ninguém devolve o Líbano aos libaneses.
E siga o dinheiro, porque ele nunca mente. Quem financia a fábrica da bota que chutou o Cristo? O contribuinte israelense, obrigado por lei. Quem financia, indiretamente, via pacotes de ajuda e acordos militares, boa parte do arsenal da região toda? O contribuinte americano, também obrigado por lei. Quem lucra? A indústria bélica, os burocratas da defesa, os think tanks que vivem de consultoria sobre a próxima guerra, os políticos que colhem votos acenando com bandeiras. Quem perde? O camponês libanês, o fiel que rezava naquela imagem, e o trabalhador ocidental que vê a inflação comer seu salário enquanto o orçamento militar engorda. Roubo, confisco e propina, tudo no mesmo gesto, tudo com chancela de lei.
Se todos repetirem em coro que foi apenas um soldado exaltado, desconfie. Quando o consenso chega rápido demais e vem embalado em adjetivos brandos como "grave" e "lamentável", é porque há alguém interessado em que a conversa termine ali. O ato não foi de um homem, foi de um sistema que treina homens para pisar em solo alheio e depois se surpreende quando eles pisam também no que há de sagrado nesse solo. A estátua caída é pequena diante do que ela denuncia, que é uma ordem inteira sustentada na premissa de que território dos outros é rascunho, propriedade dos outros é detalhe, e fé dos outros é folclore.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.