Thiago Ávila comparece neste domingo a um tribunal em Israel com o relato de quem foi "espancado tão violentamente que desmaiou duas vezes", e o juiz, em vez de mandar apurar quem encostou a mão no detido, simplesmente estende a detenção por mais 48 horas. Repare na coreografia, porque ela é didática: o sujeito chega machucado, denuncia a tortura no próprio recinto que deveria protegê lo, e o recinto bate o martelo do lado de quem bateu nele. Não é falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado, com a precisão suíça de um relógio que só atrasa para os fracos.
Convém lembrar o óbvio que ninguém quer dizer em voz alta: tribunal não é templo da justiça, é repartição do Estado, e o Estado tem um vício congênito de absolver a si mesmo. Quando o agredido é civil e o agressor veste farda, a balança já nasce torta, porque a mesma entidade que fornece o uniforme paga o salário do magistrado. Pedir imparcialidade nessa equação é o equivalente a pedir que a raposa investigue o sumiço das galinhas, com a agravante de que, neste caso, a raposa ainda redige a ata da reunião e assina como testemunha.
Há quem diga, com aquele ar de quem leu três manchetes e se acha analista internacional, que Ávila procurou, que se meteu onde não devia, que ativista de flotilha sabe no que está se metendo. Pode ser, mas o argumento prova demais. Se o critério para apanhar até desmaiar é "estar onde não devia", então qualquer um de nós, em qualquer fronteira do planeta, vira presa legítima do humor do soldado da vez. A doutrina do "ele mereceu" é o álibi universal de toda tirania que se preze, do legionário romano ao agente do checkpoint moderno, e funciona sempre pela mesma razão: a vítima não vota nas urnas de quem bate.
Siga o dinheiro, que é onde a história começa a fazer sentido. A maquinaria de detenção, os tribunais militares, a cadeia logística inteira que mantém um cidadão estrangeiro trancafiado e dolorido, tudo isso é financiado por imposto, isto é, por confisco compulsório de gente que jamais foi consultada sobre o destino do próprio suor. O contribuinte israelense paga para bater, o contribuinte brasileiro paga uma chancelaria que emite notas tímidas e protocola preocupações, e no meio do sanduíche está um corpo humano servindo de almofada para os interesses geopolíticos de quem nunca levou um soco na vida. A conta sempre fecha, e nunca fecha para quem deu a ordem.
O detalhe mais obsceno é o ritual da prorrogação. Dois dias a mais. Por quê? Porque sim, porque podem, porque a burocracia precisa de tempo para harmonizar a versão oficial com os hematomas da vítima. Toda detenção estendida sem acusação formal é, em essência, sequestro com papel timbrado, e a única diferença entre o bandido da esquina e o agente do Estado é que o segundo tem um carimbo que transforma violência em "procedimento". Mude o carimbo de lugar e o crime continua exatamente o mesmo, com a vantagem perversa de que agora vem com pensão e aposentadoria.
Que se tire daqui a única lição que importa, e que vale para Tel Aviv, Brasília, Washington ou qualquer capital que insista em nos vender a fábula do monopólio benevolente da força: governo nenhum bate em ninguém por acidente. Bate porque pode, bate porque foi treinado para bater, bate porque calcula que o custo político de bater é menor do que o custo político de tolerar a dissidência. No fim, a pergunta volta inteira, sem anestesia: quem paga essa pancadaria toda, e quem recebe o salário no fim do mês para administrá la? Enquanto a resposta for "nós pagamos e eles recebem", o próximo a desmaiar duas vezes pode ser qualquer um.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.