O brasileiro Thiago Ávila e o ativista hispano-palestino Saif Abukeshek passaram por audiência neste domingo num tribunal israelense, depois que o governo de Tel Aviv solicitou a prorrogação da detenção por mais quatro dias. Foram capturados na última quinta-feira, após a interceptação de uma flotilha humanitária que tentava furar o cerco a Gaza. Traduzindo o juridiquês para o português dos mortais: agentes armados de um Estado abordaram civis em águas internacionais, sequestraram cidadãos de outras nações, levaram a julgamento em solo próprio, e agora pedem prorrogação como quem pede mais um cafezinho. O fato concreto é esse, e nenhuma quantidade de adjetivos diplomáticos consegue desentortá-lo.
Há uma lógica elementar que a imprensa palaciana finge não ver. Se um cidadão de país A é apreendido em alto-mar, fora da jurisdição soberana de qualquer Estado, por agentes do país B, e levado para julgamento no país B sob leis do país B por atos que não ocorreram em território do país B, então o que se está a praticar não é justiça, é captura. O nome técnico para isso, quando praticado por particulares, é pirataria. Quando praticado por uniformes oficiais com bandeira costurada no ombro, vira operação de segurança. A fantasia muda, o ato é o mesmo. Os romanos chamavam de razzia, os corsários chamavam de presa legítima, e o vocabulário moderno preferiu o eufemismo.
Sigamos o dinheiro, que é onde a verdade costuma morar enquanto a retórica passeia. Quem paga a conta dessa flotilha? Doadores privados, ONGs, ativistas que rachavam combustível e mantimento. Quem paga a conta da interceptação militar, dos drones, da marinha mobilizada, do tribunal funcionando no domingo, do sistema prisional que agora hospeda o brasileiro? O contribuinte israelense, claro, mas também, indiretamente, o americano que despeja bilhões em ajuda militar anual, e até o brasileiro, que vê o próprio Itamaraty consumir orçamento para emitir notas que ninguém em Tel Aviv lê. O fluxo de recursos do confisco para o aparato bélico é um moto contínuo, e cada flotilha barrada é uma justificativa renovada para o próximo cheque.
O governo brasileiro, esse pugilista de banheiro, sabe gritar palavra de ordem em comício e descobre que tem voz fina quando o assunto é pôr a cara para defender um nacional preso por estrangeiros em águas internacionais. A esquerda que enchia a praça com keffiyeh agora cochicha por canais oficiais, porque sabe que negócio com Israel envolve tecnologia, inteligência, software de espionagem e uma rede de favores que nenhum chanceler quer arranhar. A direita, que finge moralidade cristã, prefere bater palma para qualquer ação militar desde que venha embrulhada em bandeira aliada. Sobra para o cidadão, sempre o cidadão, descobrir que a soberania nacional vale exatamente o que pesam as conveniências do dia.
Convém lembrar que impérios sempre justificaram abordagens em alto-mar com a mesma cantilena. A Marinha britânica do século dezenove sequestrava marinheiros americanos sob o pretexto de combater a deserção, e isso quase rendeu uma guerra. A Espanha colonial confiscava navios sob acusação de contrabando que ela mesma definia. A diferença entre pirataria e poder de polícia, na prática histórica, sempre foi quem tinha o canhão maior e a imprensa mais cooperativa. Hoje, o canhão é o drone, e a imprensa é o algoritmo. O resto do roteiro continua idêntico, com novos figurinos.
No fim, a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta é sempre a mesma. Quem ganha com a prorrogação da prisão de Thiago Ávila? Ganha o governo israelense, que mostra serviço ao eleitor doméstico. Ganham os contratos de defesa, que dependem da tensão permanente para vender o próximo lote. Ganha o governo brasileiro, que pode performar indignação seletiva sem custo real. Quem perde? O brasileiro preso, a família dele, a noção de que existe alguma coisa parecida com direito internacional, e o pagador de impostos dos dois lados do Atlântico, que financia ao mesmo tempo o cerco, o resgate diplomático e o circo midiático. O rei está nu, navega de couraçado, e cobra ingresso para você assistir.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.