A imagem é quase poética para quem gosta de ironia histórica: soldados israelenses hasteando bandeira sobre as ruínas do Castelo de Beaufort, fortaleza erguida pelos cruzados no século XII para conter sarracenos, depois tomada por Saladino, depois pelos templários, depois pelos mamelucos, depois pelos otomanos, depois pelos franceses, depois pela OLP, depois por Israel em 1982, depois pelo Hezbollah, agora outra vez por Israel. Oitocentos anos de bandeiras trocando de mastro nas mesmas pedras, e ainda há quem acredite que desta vez a posse será definitiva. A geografia ensina o que a propaganda esconde: aquela colina nunca pertenceu a ninguém de forma permanente, ela apenas devora os impérios que a tomam.

O detalhe que o resumo de agência não conta é o preço. Cada metro avançado naqueles quatorze quilômetros e meio de poeira libanesa é pago, no fim da cadeia, por algum cidadão que jamais viu o sul do Líbano no mapa. Operações militares prolongadas consomem munição cara, combustível caro, soldados caros, hospitais caros, indenizações caras. Quem fatura com isso? Os fabricantes de blindados, as empreiteiras de reconstrução que já circulam pelos corredores ministeriais antes mesmo do cessar-fogo, os contratos de inteligência que se renovam automaticamente sob estado de emergência, os lobistas que voam entre Tel Aviv e Washington para garantir o próximo pacote de assistência. Toda guerra é um esquema de transferência de renda disfarçado de épica nacional.

E aqui entra o silogismo inconveniente que ninguém quer formular em voz alta. Se toda ação prolongada do Estado gera uma classe de beneficiários permanentes, e se essa classe de beneficiários ganha mais quanto mais durar a ação, então a paz é, para esses beneficiários, um prejuízo contábil. Daí a sequência ininterrupta de objetivos militares que se redefinem conforme se aproximam, daí o vocabulário elástico do tipo zona de segurança, perímetro tático, ameaça remanescente. O dicionário se estica para que o orçamento não encolha. Quem assina o cheque, no entanto, segue acreditando que o castelo medieval recém-capturado tem alguma relevância para a sobrevivência da sua família em Haifa ou em Beirute.

Vale lembrar uma trivialidade que o jornalismo embedded costuma omitir: o Líbano não é um país hostil por acidente genético, é um território fragmentado por décadas de intervenção externa, financiamento cruzado de milícias e ocupações que se justificaram, todas elas, com a mesma retórica defensiva. O Hezbollah não nasceu do nada em 1982, ele é produto direto da presença militar anterior, assim como aquela presença militar foi produto da expulsão palestina de outro lugar, que foi produto de outra decisão geopolítica anterior, e assim por diante até onde a paciência alcança. O Estado é especialista em criar o próprio inimigo e depois cobrar do contribuinte para combatê-lo.

O cidadão comum, israelense ou libanês, é o que paga duas vezes: paga com o imposto que financia a máquina e paga com o filho que vai operar a máquina. Os que recebem, esses ficam confortavelmente afastados das pedras do Beaufort, em escritórios climatizados, assinando contratos de fornecimento e dando entrevistas sobre a importância estratégica de cada metro tomado. É a mais antiga divisão de trabalho da humanidade: uns morrem, outros lucram, e no meio fica o jornalista informando que houve avanço.

Castelos medievais são monumentos úteis precisamente porque expõem a vaidade de toda conquista. Foram construídos para durar mil anos e duraram, mas as bandeiras que tremulam sobre eles não passam de uma geração. O que permanece, em qualquer guerra dessas, é a dívida pública contraída para travá-la, a inflação emitida para pagá-la e a geração mutilada que retorna para casa. O resto é fotografia para manchete, retórica para ministro, romance para historiador oficial. O contribuinte, esse, continua sustentando a peça inteira sem nunca ter recebido o roteiro.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.